Ressuscito este espaço movido pela vontade de não o atirar também para o limbo caótico das imensas coisas que inicio e não acabo…
A mudança do ritmo e da velocidade que me roubam os reflexos e as reflexões a que gosto de me entregar não podem ser motivo do abandono deste meu modesto canto da world wide web, ainda que visitado por uma minoria de conhecidos que aqui vêm espreitar os estados da alma do dia ou das noites transformadas em madrugadas…
Neste post, sou movido também pelas aspas que abrem e fecham uma citação de stendhal…
“deseja tudo, espera pouco, não peças nada”
Genialmente simples, tomo-lhe conhecimento através do Pedro de Vasconcelos numa entrevista, também ela simples, também ela genial, numa revista que me esperava, aberta nessa pagina em cima da mesa de um dos meus bares preferidos junto ao mar do Porto, exposta ao sol pueril da manhã de domingo…
Entra desta forma casuística, porém brutalmente poética, para o segundo lugar dos pensamentos que recolho aqui e ali… A primeira posição, inabalável, continua presente no rodapé deste blog….
Sabes bem que o silêncio ecoa de uma forma estrondosa quando as palavras que não dizes, que não queres dizer, não tem o som, não tem o sabor, não têm o sabor de quem sente, de quem diz o que sente, de quem sente o que diz…
Sabes bem
Sabes bem que não são esses os silêncios, que não são essas as palavras que oiço… que anseio, que oiço sem que as tenhas ainda, ainda dito…
Se lhe perguntassem em que pensava, não saberia responder. Provavelmente não ouviria sequer a pergunta nem que lha gritassem ao ouvido. Sintonizado apenas nos passos cada vez mais próximos, de alguém, de algo, de alguma estranha forma que não reconhece mas pressente. Sincopados, certeiros. Avassaladores. Tinha medo. Encolhia-se a um canto da saudade e empurrava os joelhos contra o peito. Do silêncio surgiam as vozes que o inquietavam, vozes que ecoavam sonoras num conflito que não tem forças para vencer. Acocorado, perdido no pensamento do antes e do depois, deixa-se absorver pelas chamas que lhe sombreiam o campo de visão em imagens fugidias, cintilantes…
Apesar de a vontade ser a de ficar em casa a afogar a dor entre as reminiscências cada vez mais ténues dos dias que, afinal, foram quase sempre indistintos, acabou por empurrar o corpo pela noite obrigando-o às luzes de uma madrugada fria.
Alheio ao espírito a que a quadra natalícia sugere, atravessou a cidade de bar em bar, encarneirado por uma multidão onde não se reconhece nem se vê, narcotizado em ébrios espaços de copos de whisky e fumo de cigarro. Traficado pelo valor mais baixo da sua auto estima.
Os ponteiros no relógio de pulso contavam não o tempo, que lhe parecia estático, mas as partículas cada vez mais densas de um obnubilado sentimento de despedida; esse expoente intransigente a que, obstinado, se entregava.
Como um rio sem margem, deixou-se levar sem as vontades próprias que tanto valoriza; sem a garra que recentemente se tinha descoberto; sem o poder da escolha e da decisão. Tropeçou em caras de outros tempos, em abraços e sorrisos de ocasião, e tudo lhe pereceu igual, tudo lhe pareceu feito de uma estúpida e imutável resistência inconsequente.
Volta a casa pela hora do lobo, de alma vazia e olhos rasos e traz nas mãos, por entre os dedos, as memórias que já lhe escapam.
Esta é a hora
Sem nunca o desejar sempre o esperei
Chegou o momento, chegou a hora
Veio com o vento do Outono e levou-te embora
de mim, de nós
Para onde nunca o saberei
Por que choro ao ver-te partir?
Quando já há muito deixaste de viver
para apenas existir
e lutar por ficar
resistir ao tempo e durar
Para que essa luta, existência
e esta lágrima que resbala
eternizem a enorme ausência
que deixas em teu lugar
sentada no sofá da sala.
Não sei se aqueles que me acompanham neste blog se lembram deste meus post de há um ano.
Desde essa altura que vos quero disponibilizar em audio ou vídeo essas aveludadas palavras.
E uma vez mais acredito que a desilusão tem o mesmo berço da ilusão. São ambas feitas da mesma matéria. Nascidas do mesmo sonho. Uma o início dele, outra o seu fim… Complementar-se-ão? Uma o arquétipo de um desejo, a outra a sua materialização no instante em que abrimos os olhos; a fracção de segundo em que tomamos consciência de um novo ciclo de reacções cognitivas…
Por agora anoiteço, amanhã caminharei de novo de ilusão em (des)ilusão…
Para que infinitos olharás tu? Quem verás para além do vento que te ondula os cabelos? Que marés amanhecerão no azul do teu olhar? Para onde te leva a brisa dessas águas, que cheiros, que vontades… Porque não estou eu debruçado nessa janela ao teu lado recordando a saudade de um futuro mergulhado em ilusões? Um barco ao longe, do outro lado junto à costa, sou eu que chamo por ti. Soltei amarras, icei as velas ao vento, ajustei o leme. Vem…
Se os meus dedos neste blog não escrevem é porque dele têm medo. Não querem, não deixam. Guardam para si o tremer quase estático da inquietude dos dias; das sombras das noites que já anunciam o fim do verão.
The wounds on your hands never seem to heal
I thought all I needed was to believe
Here am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or the beat of my heart
My love wears forbidden colours
My life believes
Senseless years thunder by
Millions are willing to give their lives for you
Does nothing live on?
Learning to cope with feelings aroused in me
My hands in the soil, buried inside of myself
My love wears forbidden colours
My life believes in you once again
I’ll go walking in circles
While doubting the very ground beneath me
Trying to show unquestioning faith in everything
Here am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or a change of heart
My love wears forbidden colours
My life believes
My love wears forbidden colours
My life believes in you once again David Sylvian
Dos silêncios e dos conflitos a que se entrega traz consigo um tigre que passeia pela trela como quem passeia um cachorro. Ninguém o vê. Apenas tu. E eu. Sinto-lhe o rugir de felino selvagem. Predador. Sinto o calor ofegante de um respirar angustiado. Consigo ouvir as correntes que se arrastam pelo chão a cada passo. Caminha ainda pelos corredores exíguos e bafientos e ao fundo a luz amarela da arena começa a ofuscar-lhe o olhar. Em breve gladiará perante um coliseu vazio de gente.
Nos seus silêncios com que vai preenchendo as páginas que deixa em branco, a tinta é de bruma mas é com sorrisos vai acrescentando reticências aos parágrafos…
Lembro-me dos velhos discos de vinil que ouvia em criança e início de adolescência. Não tinha muitos que na altura já caíam em desuso; uns quantos de histórias infantis, alguns de música pop e rock dos anos 80 e outros tantos “herdados” dos meus pais ou irmão mais velho. Recordo ainda o top dos mais ouvidos: a banda sonora da série televisiva ‘Twin Peaks’, a banda sonora do filme ‘Once Upon a Time in America’, um álbum duplo do Carlos do Carmo e o mais percorrido pela agulha: a discografia do Zeca Afonso.
Tal como nas cassetes que alimentavam o mesmo aparelho ao centro do quarto, os discos de vinil tinham uma particularidade que me atraíam: o Lado B. Os estalidos sincopados de fim de ranhura em espiral que pediam sempre o outro lado do disco. Não era propriamente o resto das músicas que me fascinava mas sim, simplesmente, a existência de um outro lado.
É nos tempos do vinil que me sinto tantas e tantas vezes. É lá, no lado B, no outro lado. No outro lado da vida. No lado B da vida. Um limbo entre o ser e o existir. Como se eu próprio fosse uma agulha que percorre as voltas (às voltas?) de um destino, de uma música, de um som… Um estado que não é passageiro mas sim cíclico, como se se tratasse mesmo do fim de uma ranhura em espiral que trepida e pede uma volta no disco. Uma reviravolta (?).
Mais uma vez chego à conclusão que a chave é mesmo a permissividade. Ou como diz o Palma “reduz as necessidades se queres passar bem”. Quanto mais aberta se deixa a janela da alma melhor avistamos o horizonte. A questão é: até onde quereremos contemplar?
A chave com que, pela primeira vez abriu a porta, estivera sempre naquela fechadura. O que nunca soube foi, em que sentido e quantas voltas lhe havia de dar.
Em estado de vigília, interditado aos meus próprios sonhos, torno-me guardador de quimeras. Colho-as ainda verdes e guardo-as no cesto alado da mais pura utopia, para que um dia, talvez um dia, tas devolva maduras. Mais maturas que maduras, mas nem por isso com menos vontade de rasgar em cores o resignado lençol cinzento com que à força nos tentam embrulhar.
Que corredor é esse? Para onde o leva? Para onde nos leva a nós que caminhamos lado a lado com o velho, noutro corredor, aparados por outras bengalas. Quem nos amparará a queda?
Um velho. Não muito velho, mas velho. Cambaleia entre a bengala e a fachada de pedra do edifício que lhe ampara o equilíbrio precário. A barba de vários dias, o boné e a restante indumentária dão-lhe um ar sujo, abandonado, como o resto de alma que lhe vai caindo do olhar saturado. Descansa a cada dois metros encostando o corpo à parede, depois volta, arrastando os pés. Sozinho no passeio tenta alcançar a padaria, de onde saem e entram pessoas sem darem pela sua presença. Ele olha-as, segue os seus passos, pede-lhes auxilio, não fala. Insiste. Alcança o degrau. Levanta a perna esquerda mas a direita não aguenta. Tenta ao contrário. Levanta a perna direita e com um ligeiro desequilíbrio consegue ultrapassar o obstáculo. Minutos depois volta ao mesmo degrau. Ao descer as forças traem-no e, não fosse a entrar naquele momento um sujeito que lhe deitou a mão, cairia desamparado no chão. Recomposto, agradece levando a mão à cara do desconhecido que afaga duas ou três vezes. Não fala. Encosta-se junto à porta. Talvez não tenha quem lhe faça companhia durante o lanche e resolve tirar do saco de papel o pão que comprara há instantes. Leva-o à boca mesmo assim, simples. Das mãos trémulas escorrega a bengala que lhe cai sobre os pés. Curva-se em seu alcance, mas não consegue e deixa também cair o pão ainda quente. Abre de novo o saco de papel. Está vazio. Olha para o chão, triste, bate com o punho na perna. Não fala. Acena com o dedo indicador para que lhe apanhem do chão o que deixara cair. Assim acontece: alguém passa e recupera-lhe a bengala. Insiste e pede o pão que ampara entre os dois pés. Ainda com a bengala na mão o fugaz ajudante verga-se de novo e levanta do chão o resto de pão mordido que enfia com dois dedos dentro do saco de papel. Devolve-lhe a bengala e segue o seu caminho. Com duas voltas, fecha o saco que guardará para depois e regressa ao corredor definido pela bengala e a fachada de pedra do edifício.
Não é quando a noite chega mas sim quando ela grita o seu mais estrondoso silêncio em plena madrugada. É quando as paredes abanam só de lhes tocarmos em busca de equilíbrio. É quando a luz do candeeiro irrompe do nosso polegar no interruptor e nos ofusca e nos cega ainda mais que de imediato premimos de novo o botão. É quando à força tentamos adormecer para esquecer a saudade. Que vem e que vai para depois voltar…
Não fosse o sono que me vai adormecendo aos poucos os dedos, esta noite ficaria em frente ao teclado, apenas para ver saltar entre os olhos um cursor tímido.
Onde vamos buscar a força de ficar, de continuar?
Quando estamos no fim, no limite, como se agarram as vontades?
Como se agarram os desejos?
Seremos mesmo nós?
Ou serão eles que nos agarram, que não nos deixam partir.
Sou vampiro.
Não sou morto nem moribundo.
Sou vampiro sem noite, sem caixão,
sem mundo.
Mas no teu pescoço
não há cruz,
bala de prata ou raio de luz.
No teu pescoço
sou vampiro
ou sou gente?
As paredes voltam a apertar à medida que o tempo se escoa a uma velocidade tal que não sei mais que dia é. Segunda? Domingo? Sexta? Não sei, são todos iguais… Começam e acabam sempre da mesma maneira. Irremediavelmente iguais. Produtos da linha de montagem de uma qualquer fábrica de contrafacção, estampados em imitações de segunda e vendidos a preço de custo. Sem lucro…
Os autores são assim: um mistério. São o que são e o que queremos que sejam. Às vezes espanto, muitas vezes desilusão. O que me leva a aceitar cada vez mais o facto que o que escrevem não é deles. É nosso, é de quem os lê. É de quem naufraga de página em página agarrado a uma tábua de palavras escritas. De quem sonha.
Escrevo isto a pensar no António Lobo Antunes, poderia nomear muitos outros ou até alguém mais próximo, que conheço mal mas de mais perto.
Exemplifico: “Acho que (Camões) é o António Lobo Antunes da Poesia” in Visão nº 712, até aqui tudo bem, caso a citação não fosse do próprio Lobo Antunes, ou ainda, e dito pelo mesmo: “Honestamente, se tivesse de escolher um escritor escolhia-me a mim” in Pública nº545. Mas o que é isto? Um ego do tamanho do mundo? Vaidade? Sentimento de superioridade?
Tinha gostado muito da entrevista que deu a Ana Sousa Dias no programa Por Outro Lado na RTP há já um ano ou dois. Mas a ideia com que fiquei era precisamente a oposta: introvertido, envergonhado, humilde… Mas desde que li estas duas citações e o texto onde estão inseridas que não param de me martelar no pensamento. Mudou? É esquizofrénico? Que tipo de homem é este?
Ontem ouvi a entrevista a Carlos Vaz Marques e volto à impressão inicial, perdoo a vaidade, que agora já não é vaidade é orgulho. Perdoo o egocentrismo, que agora não é egocentrismo é… não sei o que é… Nele é qualquer coisa de místico. É inexplicável realismo.
Esta manhã, minutos antes das nove, Fernando Alves na rubrica Sinais da TSF tentava lembrar-se do primeiro livro que leu. Não deu resposta. Eu sei, eu lembro-me do primeiro livro que li (excluindo obviamente a cartilha do João de Deus e os primeiros livros didácticos). O primeiro foi a Fada Oriana da Sophia de Mello Bryner. O segundo? O Cavaleiro da Dinamarca, também da Sophia. O terceiro? O Rapaz de Bronze, da Sophia. O quarto? A menina do Mar, adivinhem de quem… Pode não ter sido por esta ordem, mas foram no mesmo dia, na mesma tarde fria de inverno…
Há dias em que não devia pensar, muito menos escrever.
Se é sabido que as palavras ferem, as palavras escritas dilaceram-me, rasgam-me em pedaços. Saem-me pela ponta dos dedos, têm vida própria, tomam-me o controle. Custam a sair, saem devagar para dilacerar ainda mais, massacram-me. Mesmo assim eu fico. Sou estúpido. Fico parado, imóvel em frente a um teclado a imaginar palavras para depois tentar não as escrever.
Sabemos desde a primeira desilusão de criança que a vida não é como a queremos, como a desejamos, como a planeamos. Muitas das vezes é, ironicamente, precisamente o oposto mas, nem por isso pior…
Acontece que, por mais que planeemos as nossas rotas, que gastemos horas na busca milimétrica das palavras que queremos dizer a alguém em determinada situação, que façamos conjecturas de comportamentos, não temos no momento crucial o poder de controlo, de auto-controlo suficiente para nos sermos fieis: enganámo-nos descaradamente, traímos as reacções cognitivas e divorciamo-nos da racionalidade. Isto porque somos simplesmente humanos, portanto, imprevisíveis no que toca a sentimentos. Selvagens?! Primatas? Talvez primários… É por essa razão que adoptei há já algum tempo a teoria do «read the directions, even if you don’t follow them».
Há as manhãs em que acordamos e está sol e então tudo corre bem. Progredimos pelas horas dos dias. Saímos com os amigos, conversamos e discutimos em frente a um copo, rimos, gargalhamos. Não sentimos. Não sentimos que somos diferentes do que mostramos, que somos falsos, mentirosos: aparentemente tudo bem, sorriso nos lábios, resposta pronta para tudo mas, inconformados, inconstantes, obstinados pelo impossível, sedentos do inalcançável. É a obsessão do inatingível na eminência do colapso.
Por isso precisamos de alguém. Somos egoístas? Por isso precisamos de alguém presente, mesmo que ausente, distante. Um colo de mimo, um consolo nem que em pensamentos nostálgicos do que já fomos e fizemos. Por isso precisamos de um telhado, de uma casa, de uma família, um porto de abrigo. Por isso precisamos de viajar fechados no quarto, em cima da cama, no escuro, em silêncio… Por isso também precisamos de estar só. Por isso também precisamos de nos esconder. Saltar da rota e ver o que somos. Observar-nos pelo lado de fora, que o de dentro já estamos fartos, displicentes.
O caminho é, parece-me, a permissividade. Aceitar os factos como são, as pessoas como se nos apresentam, os dias como nascem. Embora que moldáveis, imutáveis somos todos, não por vontade própria, teimosia ou desígnio divino, mas por inerência. Rodamos a cada segundo no prato do oleiro mas não perdemos o barro de que somos feitos.
Somos responsáveis pelas nossas escolhas, réus dos nossos passos, portanto, o que atingimos é nosso e devemos reclamá-lo para nós.
Vivemos em sociedade, talvez não das melhores, mas em sociedade. Como tal, obedecemos a regras, às nossas e às dos outros. Obedecemos a um relógio que trazemos no pulso, obedecemos ao pai, à mãe… Respeitamos. Só assim se justifica.
Vivemos em dissonância de vontades em busca de um momento, o ponto de não retorno: o dia que dividirá as nossas vidas entre o antes e o depois desse instante. Um marco. Alguns encontram-no mais cedo, outros mais tarde, outros não o encontram de todo. Eu, continuo crente que esse dia chegará. O dia D. «D» de definição.
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles