Ressuscito este espaço movido pela vontade de não o atirar também para o limbo caótico das imensas coisas que inicio e não acabo…
A mudança do ritmo e da velocidade que me roubam os reflexos e as reflexões a que gosto de me entregar não podem ser motivo do abandono deste meu modesto canto da world wide web, ainda que visitado por uma minoria de conhecidos que aqui vêm espreitar os estados da alma do dia ou das noites transformadas em madrugadas…
Neste post, sou movido também pelas aspas que abrem e fecham uma citação de stendhal…
“deseja tudo, espera pouco, não peças nada”
Genialmente simples, tomo-lhe conhecimento através do Pedro de Vasconcelos numa entrevista, também ela simples, também ela genial, numa revista que me esperava, aberta nessa pagina em cima da mesa de um dos meus bares preferidos junto ao mar do Porto, exposta ao sol pueril da manhã de domingo…
Entra desta forma casuística, porém brutalmente poética, para o segundo lugar dos pensamentos que recolho aqui e ali… A primeira posição, inabalável, continua presente no rodapé deste blog….
Em conversa casual sobre o que somos ou o que já fomos, salta-me à memória uma frase que li num livro que, infelizmente, já não sei identificar, mas que, felizmente, ainda guardo toscamente escrita num pequeno caderno de capa azul que me ofereceram algures em 1999:
“É com os acasos que nos atiram da direita e da esquerda que urdimos o nosso destino. Acreditamos dizer o que queremos, mas é quem nos fez falar pela primeira vez que fala escondido por dentro das nossas palavras.”
A citação é, se a memória não me falha de Jacque Lacan…
Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.
Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão par ao campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!…
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores…
Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! –
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendia…
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta:
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- …no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água…
…um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
…O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
comos e fosse uma festa?… –
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá par ao cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!…
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte, violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas, portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever de falar
[…]
Peço-lhe apenas que seja sempre indulgente em relação às respostas que talvez o venham a deixar de mãos vazias; pois, no fundo - e precisamente nas coisas mais profundas e importantes - estamos indescritivelmente sós, e para que alguém possa aconselhar ou mesmo ajudar outra pessoa, muita coisa tem de acontecer, muita coisa tem de dar resultado, toda uma constelação de coisas tem de se conjugar para que isso aconteça.
[…]
Rainer Maria Rilke, Viareggio, 5 de Abril de 1903
in Cartas a Jovens Poetas
Não escondo a minha admiração por Miguel Sousa Tavares, quer pela sua escrita (crónica, reportagem ou romance) quer pela sua postura independente, ou ainda pela mordaz frontalidade com que se pronuncia cruzando muitas vezes a ténue linha que lhe separa a sinceridade da arrogância. Costumo acompanhar todas as, raras, entrevistas com que presenteia os leitores. Aqui fica a última, conduzida por Carlos Vaz Marques no programa da TSF, Pessoal e… Transmissível. Não é, a meu ver, a mais interessante dele mas, sem dúvida uma entrevista a ouvir com atenção.
Deserto
Império do Sol
Tão perto
Império do Sol
Prova dos nove
Da solidão
Cega miragem
Largo clarão
Livre prisão
Sem a menor aragem
Sem a menor aragem
Que grande mar
De ondas paradas
Que grande areal
De formas veladas
Vitória do espaço
Imensidão
Ponto de fuga
Ampliação
Livre prisão
Anfitrião selvagem
Anfitrião selvagem
No deserto
Ouço o fundo da alma
E, se a areia está calma,
O bater do coração
É que tanto deserto
Tão de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscar
Is not famous.
It may be that when his life at last comes to an end he will leave no more trace of his sojourn on earth than a stone thrown into a river leaves on the surface of the water.
But it may be that the way of life that he has chosen for himself may have an ever-growing influence over his fellow men so that, long after his death perhaps, it may be realized that there lived in this age a very remarkable creature. W. Somerset Maughamin O Fio da Navalha
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não)
Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não…a vida nãopara) Composição de Lenine e Dudo Falcão
Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui. Fernando Pessoa
Nenhum relato de um sonho pode transmitir a sensação de sonho: o misto de absurdo, surpresa, espanto.
Aquela sensação de se estar prisioneiro do inacreditável - a verdadeira essência dos sonhos. Joseph Conrad, Heart of darkness
[…]
Uma vez adormeci estendido de bruços num colchão de praia azul-turquesa e quando acordei só havia mar à minha volta. Eu tinha doze anos, lia muito, e orgulhava-me do meu sólido cepticismo religioso. Não achava provável que a Virgem Maria me aparecesse no colchão (até porque o espaço era exíguo) para me ajudar a remar de volta. Acreditava, porém, no poder da imaginação. Fechei os olhos e pensei que se conseguisse imaginar-me a regressar, regressaria. Pus-me então a refazer mentalmente o minucioso desenho da costa: as altas escarpas, o morro que parecia um chapéu, a branca areia resplandecendo sob o sol. Uma hora depois, já a luz se começava a transmudar em lento mel, estava de novo em terra.
Ou não (ocorreu-me isto há pouco, ouvindo a música de Victor Gama) - e se por acaso me entusiasmei demais? E se por acaso, depois de imaginar a linha da costa, continuei a caminhar pela praia, com o colchão à cabeça, não sobre a areia verídica, mas sempre em imaginação, até regressar para junto dos meus pais? Não posso ter imaginado também essa noite, e as restantes, as férias inteiras e a seguir o regresso às aulas? E, finalmente, os anos que se seguiram, com as suas terríveis convulsões, o primeiro beijo, a exaltação do amor, as aulas na faculdade, as viagens, os livros que li e os que escrevi? Talvez eu siga ainda à deriva, estendido de bruços naquele colchão azul-turquesa, sobre um mar ainda mais azul, ainda mais brilhante, sonhando que estou aqui, nesta tarde de sol violento, emerso no ruído que me chega lá debaixo, do trânsito a atropelar-se nervoso na Praça do Quinaxixe.
[…]
O texto que acima transcrevi é um excerto da última crónica de Eduardo Agualusa publicada no passado domingo na Pública. (link para assinantes)
O refúgio espiritual sempre foi o sonho. A viagem que nos leva mais longe sem nos roubar ao espaço que ocupamos nesse momento. É por lá que gostamos de estar. É por lá que nos quedamos, que nos enrolamos em posições fetais por tanto tempo. Qual é a nossa realidade? Que momentos nos são legítimos? Responderemos então a vontades oníricas ou à vida que, fora dele - do sonho - gostaríamos de ter?
Chego ao blog com 50 minutos de atraso em relação ao último minuto do dia da poesia (eu que não gosto do dia disto ou daquilo…)…
Deixo dois a marcar a data. Um pelo Inverno que se cessa, outro pela primavera que se inicia:
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
Quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio.
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos.
Quem não muda de marca, não se arrisca a vestir,
Uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is”,
Em detrimento de um redemoinho de emoções
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
Sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa
Quando está infeliz com o seu trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite pelo menos uma vez na vida
Fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias
Queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
Não pergunta sobre um assunto que desconhece,
Ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço!
Muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um
Estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda - Morre lentamente
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Os autores são assim: um mistério. São o que são e o que queremos que sejam. Às vezes espanto, muitas vezes desilusão. O que me leva a aceitar cada vez mais o facto que o que escrevem não é deles. É nosso, é de quem os lê. É de quem naufraga de página em página agarrado a uma tábua de palavras escritas. De quem sonha.
Escrevo isto a pensar no António Lobo Antunes, poderia nomear muitos outros ou até alguém mais próximo, que conheço mal mas de mais perto.
Exemplifico: “Acho que (Camões) é o António Lobo Antunes da Poesia” in Visão nº 712, até aqui tudo bem, caso a citação não fosse do próprio Lobo Antunes, ou ainda, e dito pelo mesmo: “Honestamente, se tivesse de escolher um escritor escolhia-me a mim” in Pública nº545. Mas o que é isto? Um ego do tamanho do mundo? Vaidade? Sentimento de superioridade?
Tinha gostado muito da entrevista que deu a Ana Sousa Dias no programa Por Outro Lado na RTP há já um ano ou dois. Mas a ideia com que fiquei era precisamente a oposta: introvertido, envergonhado, humilde… Mas desde que li estas duas citações e o texto onde estão inseridas que não param de me martelar no pensamento. Mudou? É esquizofrénico? Que tipo de homem é este?
Ontem ouvi a entrevista a Carlos Vaz Marques e volto à impressão inicial, perdoo a vaidade, que agora já não é vaidade é orgulho. Perdoo o egocentrismo, que agora não é egocentrismo é… não sei o que é… Nele é qualquer coisa de místico. É inexplicável realismo.
My mind trembles with shimmering leaves,
My heart sings with the touch of sunlight,
My life is glad to be floating with all things,
Into the blue of space and the dark of time.
[…]
Free me from the bonds of your sweetness, my love! No more of this wine of kisses.
This mist of heavy incense stifles my heart.
Open the doors, make room for the morning light.
I am lost in you, wrapped in the folds of your caresses.
Free me from your spells, and give me back the manhood to offer you my freed heart.
Then finish the last song and let us leave.
Forget this night when the night is no more.
[…]
Porque gosta de divagar pelas horas nocturnas dos dias numa tentativa de os esticar pela madrugada até ao infinito. Porque gosta de se prolongar em pensamentos durante um par de horas antes de ir dormir. Esta noite relembra um instante da anterior.
Comando na mão estagna o zapping num dos canais, encantado pela voz que sai através das colunas laterais do aparelho, queda-se e aumenta o volume. Fernando Alves. Uma voz grave e serena diz um poema que não reconhece à primeira. Versos sobrepostos a imagens. Imagens da cidade que anoitece. Da cidade que acende os faróis que lhe iluminam o caminho. Da cidade que regressa a casa e se esvazia. Ora num banco de jardim com o livro que declama sobre o colo. Ou numa paragem de autocarro, já vazia… O poema é afinal de Alexandre O’Neill, e como o diz bem Fernando Alves. Pode declamar banalidades, palavras soltas, idiotices… Não importa, aquela voz dá encanto ao desencanto, engrandece o que já é grande. O poema é afinal um Adeus Português.
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Acordei de um sonho. Longe de mim. Desperto nas sombras do quarto ecoa num silêncio nocturno uma voz que não reconheço à primeira. Primeiro assusta, depois acalma.
Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence. Simon and Garfunkel
Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho:
Estrela do mar
Sou a estrela do mar… JORGE PALMA
Todos nós temos a nossa estrela. Que nos guia, que nos acalma, que nos segura. Que nos questiona, que nos faz questionar. A “chama invisível que nos incendeia o peito”. Corpórea ou incorpórea, cadente ou intermitente ou fixa no firmamento, não importa. Uma estrela.
Falo-te durante a minha jornada – e só a ti – desde o ponto de partida até ao final. E, embora morra sempre no mesmo local, podes ouvir-me a falar do meu túmulo se prestares atenção. Quem sou eu?
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
Sentia de facto que em certos dias era uma personagem estranha.
Via-se como um peregrino, mas não tinha meta nem mapa.
Queria ir directo, sem desvios, para um sítio onde se sentisse perdido.
We’ll remain after everything’s been washed away by the rain
We will stand upright as we stand today
Lovestain
You left a lovestain on my heart
And you left a bloodstain on the ground
But blood comes off easily Jozé González
É próprio do homem não viver livre em libedade mas viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios. António Lobo Antunes
Revirei gavetas, esvaziei prateleiras, espreitei por detrás de outros, telefonei a amigos a quem eventualmente o tivesse emprestado e nada… Não havia meio de o encontrar… Era impossível ter perdido um livro assim…
Dois ou três anos depois, já derrotado e triste com a ideia de não o voltar a reler, encontro-o pousado em cima da cama e de capa voltada para cima. Falei sozinho. Estás aqui!! O meu pai encontrara-o aquando de uma arrumação literária.
Um reencontro feliz. Um livro pequeno, fininho, de paginas amareladas pelo tempo e a cheirar a pó, como todos os bons livros. A dedicatória escrita na primeira página pela mão do autor e dirigida aos meus pais data de 17.07.1979 estava eu a uns meses de nascer.
Rui Polónio Sampaio – Poemas, assim se intitula. O Rui era meu tio, ainda é, que não creio que os laços familiares se quebrem. Era meu tio mas não me recordo de mais do que uma ou duas frases da sua voz. Quis o acaso que deixasse de o ver ainda muito criança e só o voltasse a ver muitos anos depois num fugaz encontro numa véspera de Natal.
Pois este será, provavelmente, o livro de poemas que mais vezes reli. Identificando-me a cada palavra, em cada sílaba me questiono por que se desmembra uma família, por que deixam as pessoas de se ver. E o que sentirão os outros com isso? Será que se lembram de nós? Que se perguntam o que faremos hoje e o que queremos da nossa vida?
Agora que o tenho aqui ao meu lado e que o releio uma vez mais, não posso deixar de partilhar um cantinho dos seus segredos com os poucos leitores que me visitam neste blog.
Deixem a flor
que nasceu esquecida
no chão
da minha vida
Deixem a flor
no seu grito abandonado
como um apelo de amor
frustrado
Quando tudo acabar
deixem a flor
sobre as ruínas
daquilo que ficar
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles