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Uma vez adormeci estendido de bruços num colchão de praia azul-turquesa e quando acordei só havia mar à minha volta. Eu tinha doze anos, lia muito, e orgulhava-me do meu sólido cepticismo religioso. Não achava provável que a Virgem Maria me aparecesse no colchão (até porque o espaço era exíguo) para me ajudar a remar de volta. Acreditava, porém, no poder da imaginação. Fechei os olhos e pensei que se conseguisse imaginar-me a regressar, regressaria. Pus-me então a refazer mentalmente o minucioso desenho da costa: as altas escarpas, o morro que parecia um chapéu, a branca areia resplandecendo sob o sol. Uma hora depois, já a luz se começava a transmudar em lento mel, estava de novo em terra.
Ou não (ocorreu-me isto há pouco, ouvindo a música de Victor Gama) - e se por acaso me entusiasmei demais? E se por acaso, depois de imaginar a linha da costa, continuei a caminhar pela praia, com o colchão à cabeça, não sobre a areia verídica, mas sempre em imaginação, até regressar para junto dos meus pais? Não posso ter imaginado também essa noite, e as restantes, as férias inteiras e a seguir o regresso às aulas? E, finalmente, os anos que se seguiram, com as suas terríveis convulsões, o primeiro beijo, a exaltação do amor, as aulas na faculdade, as viagens, os livros que li e os que escrevi? Talvez eu siga ainda à deriva, estendido de bruços naquele colchão azul-turquesa, sobre um mar ainda mais azul, ainda mais brilhante, sonhando que estou aqui, nesta tarde de sol violento, emerso no ruído que me chega lá debaixo, do trânsito a atropelar-se nervoso na Praça do Quinaxixe.
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O texto que acima transcrevi é um excerto da última crónica de Eduardo Agualusa publicada no passado domingo na Pública. (link para assinantes)
O refúgio espiritual sempre foi o sonho. A viagem que nos leva mais longe sem nos roubar ao espaço que ocupamos nesse momento. É por lá que gostamos de estar. É por lá que nos quedamos, que nos enrolamos em posições fetais por tanto tempo. Qual é a nossa realidade? Que momentos nos são legítimos? Responderemos então a vontades oníricas ou à vida que, fora dele - do sonho - gostaríamos de ter?
Vou ser breve a opinar porque tudo o que aqui escrevesse não lhe chegaria à verdadeira dimensão. Vou apenas dizer que é imperdível e que entrou directamente para o meu top 10 de favoritos. De realçar também a excelente banda sonora de Mark Isham. Visite o website do filme.
“You think you know who you are? - You have no idea!”
Tal como nas estações do ano, o tempo com que nos urdimos vai correndo até encontrar o seu ponto de partida, porém, sem nunca recuar. Contraditório? Então veja o “primavera, verão, outono, inverno… e primavera” um filme em cinco actos de Kim Ki-Duk onde um monge e seu discípulo partilham vivências num mosteiro flutuante e isolado onde, mais do que em qualquer outro lado, o tempo se faz exprimir em toda a sua essência.
Enquanto não vejo o filme “coisa ruim” de Tiago Guedes e Fernando Serra com argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho, vou abrindo o apetite com a entrevista da dupla de realização no programa de Carlos Vaz Marques, o pessoal e transmissível da TSF.
Numa favela esquecida e desprezada pelo governo brasileiro, a lei da bala impera e o trafico de droga é banal. “Se o tráfico fosse legal, Zé Pequeno era o homem do ano”. É assim que o personagem, e narrador da história Buscapé, define o maior rebelde da zona. Buscapé é um miúdo com uma sensibilidade diferente do normal na favela carioca Cidade de Deus que cresce e vive no meio do mais grotesco crime, numa pobreza extrema. A sua grande ambição é ser fotógrafo. Ele vê o facinoroso cenário da favela através da lente da sua máquina fotográfica, comprada em segunda mão a muito custo com dinheiro honesto. Ele acabará por ser salvo do seu destino pelo seu talento como fotógrafo.
Protagonizado por alguns actores e cerca de 100 crianças da própria favela, é como um documentário de uma realidade que nos custa conhecer, de uma realidade que por diversas vezes fugimos ao conhecimento numa tentativa egoísta de nos preservarmos de pensamentos mais profundos da condição humana.
Este filme de Fernando Meireles é um filme violento com tiros, muitos tiros, sangue, mortes e chacinas mas que, mesmo assim, não devemos ficar indiferentes.
Mais uma noite de insónia… Venho aqui para recomendar um filme diferente. Esqueçam as actrizes de Hollywood, os efeitos especiais, os elencos de luxo e as americanadas que comemos todos os dias… Esta é uma história simples. Michele é uma criança de 10 anos que vive no meio de pitorescos campos de trigo no sul de Itália. Separando-se das brincadeiras dos seus amigos ele descobrirá um buraco no chão. Nele encafuado uma outra criança da mesma idade acorrentada e maltratada. Um filme com a mais extraordinária fotografia e de uma beleza cinematográfica fora de série. O Título original é “Io non ho paura” e é dirigido por Gabriele Salvatores.
A genialidade e a loucura são estados miscívelmente próximos.
Apesar de aparecer em cena apenas durante cerca de meia hora, Geoffrey Rush conquiostou o Oscar de Melhor Actor em 1996. Shine é um filme baseado em factos verídicos da vida do pianista David Helfgott.
Rachmaninov: Piano Concerto No 3 in D minor Op 30
Finale: Alla breve [13′21]
Quero crer que iremos assistir, à semelhança do livro, a mais uma febre do Código Da Vinci. Não sei é como vamos poder passeá-lo orgulhosamente debaixo do braço até à esplanada da praia!!
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles