Devia ter eu os meus 7 ou 8 anos e é uma das minha memórias mais remotas… ou pelo menos das mais fortes e mais presentes…
Naquele início de Verão ia todos os dias à praia. A banda sonora do caminho feito pelo FIAT 127 conduzido por uma prima mais velha era, invariavelmente, o novo álbum dos Trovante. Uma cassete branca com letras azuis! Entre a ‘Perdidamente’, com os intemporais versos da Florbela Espanca, e a ‘Fiz-me à cidade’ o caminho era sempre o mesmo: partia da Rua de Monte Alegre, onde morava a minha avó, descia a Constituição, seguia pela Via Rápida, atravessava a ponte de Leça junto ao Porto de Leixões, passava a refinaria da Galp, o Cabo do Mundo, e subia depois alguns kms da costa até à praia da Agudela.
Foi num desses percursos que um dia me detive na lírica da ‘125 Azul’. Poderia quase afirmar que terá sido o gatilho das minhas cogitações cognitivas conscientes e que me dispararam para pensamentos metafísicos, não sei, Piaget que o diga…
Foi quando regressava num final de tarde, de cabelo molhado e ainda com o sal do mar colado aos lábios e à pele seca, que aqueles versos começaram a fazer algum sentido interpretativo. Num Big-Bang, o meu universo reflexivo começava a formar-se ali, sentado no banco da frente, em trânsito, numa sopa ainda muito primitiva de conhecimentos, de experiências e de sensações…
«entre a dúvida do que sou e onde quero chegar»
«será que existe em mim um passaporte para sonhar»
«e a fúria de viver é memo fúria de acabar»
Agarrado àquelas palavras, lembro-me da onda de calor que era empurrada pelo vento através das janelas abertas do carro, e que me empurrava também para dentro de mim; cada vez mais, fervilhando nas emoções que a música me oferecia. A dúvida, o medo, os sonhos, a consciência da tenra idade e do caminho dos anos que tinha pela frente, a distância do desconhecido, eram as preocupações que meteoricamente me começavam a assaltar.
«com o ar na cara vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu»
«talvez um dia me encontre»
«assim, talvez me encontre»
Impressionante pensar como tal memória consegue estar ainda tão presente, incrustada, verdadeiramente tatuada naquilo que sou, ou penso ser, hoje. São aquelas simples viagens de ida e volta à praia, são aqueles pensamentos que me bailam quando ouço alguma das músicas dos Trovante. Inquietantemente, 20 anos depois, sinto-me, de repente, sentado naquele carro, naquele percurso, naquela chuva de meteoritos interrogativos, afogado ainda nas mesmas dúvidas… Mas desta vez, dúvidas mais conscientes e, portanto, mais dilacerantes…
Será o meu cosmos a dilatar? A julgar pela entropia, sem dúvida!