Saturday, 31 March, 2007
03:20
[…]
Uma vez adormeci estendido de bruços num colchão de praia azul-turquesa e quando acordei só havia mar à minha volta. Eu tinha doze anos, lia muito, e orgulhava-me do meu sólido cepticismo religioso. Não achava provável que a Virgem Maria me aparecesse no colchão (até porque o espaço era exíguo) para me ajudar a remar de volta. Acreditava, porém, no poder da imaginação. Fechei os olhos e pensei que se conseguisse imaginar-me a regressar, regressaria. Pus-me então a refazer mentalmente o minucioso desenho da costa: as altas escarpas, o morro que parecia um chapéu, a branca areia resplandecendo sob o sol. Uma hora depois, já a luz se começava a transmudar em lento mel, estava de novo em terra.
Ou não (ocorreu-me isto há pouco, ouvindo a música de Victor Gama) - e se por acaso me entusiasmei demais? E se por acaso, depois de imaginar a linha da costa, continuei a caminhar pela praia, com o colchão à cabeça, não sobre a areia verídica, mas sempre em imaginação, até regressar para junto dos meus pais? Não posso ter imaginado também essa noite, e as restantes, as férias inteiras e a seguir o regresso às aulas? E, finalmente, os anos que se seguiram, com as suas terríveis convulsões, o primeiro beijo, a exaltação do amor, as aulas na faculdade, as viagens, os livros que li e os que escrevi? Talvez eu siga ainda à deriva, estendido de bruços naquele colchão azul-turquesa, sobre um mar ainda mais azul, ainda mais brilhante, sonhando que estou aqui, nesta tarde de sol violento, emerso no ruído que me chega lá debaixo, do trânsito a atropelar-se nervoso na Praça do Quinaxixe.
[…]
O texto que acima transcrevi é um excerto da última crónica de Eduardo Agualusa publicada no passado domingo na Pública. (link para assinantes)
O refúgio espiritual sempre foi o sonho. A viagem que nos leva mais longe sem nos roubar ao espaço que ocupamos nesse momento. É por lá que gostamos de estar. É por lá que nos quedamos, que nos enrolamos em posições fetais por tanto tempo. Qual é a nossa realidade? Que momentos nos são legítimos? Responderemos então a vontades oníricas ou à vida que, fora dele - do sonho - gostaríamos de ter?
A propósito: recomendo o Waking Life
Tuesday, 27 March, 2007
13:01
Esta série, da autoria de António Barreto e realizada por Joana Pontes , é um retrato da sociedade portuguesa contemporânea. Tenta responder às perguntas mais simples. Quem somos? Onde vivemos? Como trabalhamos? Que saúde, que educação e que justiça temos?
Retrato social, o primeiro de 7 episódios é hoje às 21h na RTP. Não percam.
Pergunto:
Retrato social? Sociedade? Qual sociedade?
Respondo:
Resta-lhe apenas a etimologia.
Sunday, 25 March, 2007
11:39
Thursday, 22 March, 2007
00:52
Chego ao blog com 50 minutos de atraso em relação ao último minuto do dia da poesia (eu que não gosto do dia disto ou daquilo…)…
Deixo dois a marcar a data. Um pelo Inverno que se cessa, outro pela primavera que se inicia:
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
Quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio.
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos.
Quem não muda de marca, não se arrisca a vestir,
Uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is”,
Em detrimento de um redemoinho de emoções
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
Sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa
Quando está infeliz com o seu trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite pelo menos uma vez na vida
Fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias
Queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
Não pergunta sobre um assunto que desconhece,
Ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço!
Muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um
Estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda - Morre lentamente
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto - Pergunta-me
Sunday, 18 March, 2007
01:55
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta - poema sobre a recusa
Wednesday, 14 March, 2007
09:51
Que corredor é esse? Para onde o leva? Para onde nos leva a nós que caminhamos lado a lado com o velho, noutro corredor, aparados por outras bengalas. Quem nos amparará a queda?
Tuesday, 13 March, 2007
23:52
Um velho. Não muito velho, mas velho. Cambaleia entre a bengala e a fachada de pedra do edifício que lhe ampara o equilíbrio precário. A barba de vários dias, o boné e a restante indumentária dão-lhe um ar sujo, abandonado, como o resto de alma que lhe vai caindo do olhar saturado. Descansa a cada dois metros encostando o corpo à parede, depois volta, arrastando os pés. Sozinho no passeio tenta alcançar a padaria, de onde saem e entram pessoas sem darem pela sua presença. Ele olha-as, segue os seus passos, pede-lhes auxilio, não fala. Insiste. Alcança o degrau. Levanta a perna esquerda mas a direita não aguenta. Tenta ao contrário. Levanta a perna direita e com um ligeiro desequilíbrio consegue ultrapassar o obstáculo. Minutos depois volta ao mesmo degrau. Ao descer as forças traem-no e, não fosse a entrar naquele momento um sujeito que lhe deitou a mão, cairia desamparado no chão. Recomposto, agradece levando a mão à cara do desconhecido que afaga duas ou três vezes. Não fala. Encosta-se junto à porta. Talvez não tenha quem lhe faça companhia durante o lanche e resolve tirar do saco de papel o pão que comprara há instantes. Leva-o à boca mesmo assim, simples. Das mãos trémulas escorrega a bengala que lhe cai sobre os pés. Curva-se em seu alcance, mas não consegue e deixa também cair o pão ainda quente. Abre de novo o saco de papel. Está vazio. Olha para o chão, triste, bate com o punho na perna. Não fala. Acena com o dedo indicador para que lhe apanhem do chão o que deixara cair. Assim acontece: alguém passa e recupera-lhe a bengala. Insiste e pede o pão que ampara entre os dois pés. Ainda com a bengala na mão o fugaz ajudante verga-se de novo e levanta do chão o resto de pão mordido que enfia com dois dedos dentro do saco de papel. Devolve-lhe a bengala e segue o seu caminho. Com duas voltas, fecha o saco que guardará para depois e regressa ao corredor definido pela bengala e a fachada de pedra do edifício.
Sunday, 11 March, 2007
02:10
Quem pagará o enterro e as flores.
Se eu morrer de amores.
Vinicius de Moraes
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles