Acordei de um sonho. Longe de mim. Desperto nas sombras do quarto ecoa num silêncio nocturno uma voz que não reconheço à primeira. Primeiro assusta, depois acalma.
Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence. Simon and Garfunkel
É difícil entender a relação criada entre um homem e um cão. São poucos os que a entendem. São poucos os que acreditam que essa relação pode ser mais forte, mais intensa e mais duradoura do que a interpessoal. Mais próxima do que a de duas pessoas que se conhecem e que falam a mesma linguagem. Mais reconfortante que um colo depois de um mau dia. São ainda menos os que a conhecem. São ainda menos os que a cultivam.
Um cachorro; um cão; não é um brinquedo de um ano só e que depois se joga fora pelo início da época balnear. Um cão não é um animal de estimação! Um cão é um animal de companhia! Um cão é um animal fiel… Um cão não é “como nós”. Um cão fica feliz de nos ver qualquer que seja a altura em que aparecemos. Um cão é incondicional… Um cão… o meu cão, é o meu melhor amigo. As amizades não se abandonam…
Volto novamente a citá-lo, que me desculpem os leitores.
Ouço pela enésima vez a entrevista de Luís Osório a Miguel Sousa Tavares. De cada vez que a ouço, ouço coisas novas. Diz o entrevistado que durante a vida se larga lastro, assim como os navios quando estão carregados de mais. Carregados que estamos de coisas boas, de coisas más… de memórias. Largamos lastro. Acumulamos memórias numa tentativa idiota de continuar a viver a vida que temos e a que já tivemos ao mesmo tempo. Impossível, diz ele.
Impossível?
Impossível! Se assim for, Dr. Sousa Tavares: acaba de me dar uma terrível notícia. Eu que passo os dias a recordar; pessoas, sítios, cheiros, sabores, palavras, casas, paredes, luzes, estórias… A recordar vivências, a recordar instantes. Memórias. Eu, que nunca me imaginei de outra forma que não nostálgico. Não que não me projecte num tempo ainda por vir, não que não sonhe com os dias que virão e me imagine num futuro distante, mas gosto de recordar. Uma obsessão, como já me diagnosticaram. Eu, que só sou eu por ter essas recordações. Eu, que por ter vivido esses instantes que agora recordo sou o que hoje sou. Não é que já leve uma vida longa, ou preenchida, mas sei que estou ancorado ao meu passado. É das poucas coisas de que realmente sou dono. Sou dono do meu passado e nunca me passou pela cabeça desfazer-me dele. É dele que me alimento, é nele que me encontro e me percebo. É a partir dele que faço desígnios de futuro. É a partir dele que me projecto. É a partir dele que simplesmente sou.
Impossível?
Impossível! Se assim for estará prestes a chegar o dia em que terei de atirar borda fora os contentores de memórias. Terei de fazer caminhar na prancha as más recordações e pregar ao fundo do mar todos os maus momentos.
Então e as boas recordações? Que lhes faço? Lixo com elas também? Copio-as para uma folha de papel e deito fora o original? Invento um romance, planto uma árvore e faço um filho e digo que são parte de mim? Isso bastará?!
Ficarei com o navio mais leve, certamente. Mas ficarei também vazio. Mais vazio. O que serei então? Uma nova página à mercê de uma pluma divina? Um retrato ainda por tirar? Alguém ainda por ser? Provavelmente alguém ávido de acontecimentos que preencham a lacuna. Provavelmente um navio sem porto, sem doca onde ancorar.
Pois eu digo: quando o meu navio estiver carregado, apanho o transbordo e subo a bordo de um maior, de maior porão, de maior carga, mais difícil de manobrar, mas mais capaz de navegar no mar alto. Sigo a rota. A minha rota.
Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho:
Estrela do mar
Sou a estrela do mar… JORGE PALMA
Todos nós temos a nossa estrela. Que nos guia, que nos acalma, que nos segura. Que nos questiona, que nos faz questionar. A “chama invisível que nos incendeia o peito”. Corpórea ou incorpórea, cadente ou intermitente ou fixa no firmamento, não importa. Uma estrela.
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles