Pela janela do quarto entram os primeiros sinais da manhã, escancarada para trás como gosta de dormir, deixa entrar em pleno o cheiro a maresia ainda virgem daquele dia. O nevoeiro por levantar côa a luz de um sol ainda preguiçoso e traz com ele os aromas intensos do sargaço. Acorda então devagar, sem neurose, tranquilo. Consegue ouvir a escassos metros o som suave do marulhar. Abre um olho primeiro, devagarinho, depois o outro, devagarinho. Olha fixamente o tecto. Branco. Liso. Como o amanhecer daquele dia: por escrever…
Diferente. Costuma descrever as suas manhãs como difíceis. Não. Esta de difícil não tem nem a sombra. Sente uma tranquilidade tremenda, assustadora até.
Fica deitado mais um pouco? Levanta-se? Dorme mais? Vai tomar o ar fresco da manhã? Não importa, qualquer das decisões que tome será certamente a mais acertada. Tudo está bem, não há espaço para erros ou más escolhas. Assim fossem todas as manhãs. Esta é sem dúvida uma excepção. Resolve então aproveitar, com medo que este fosse mais um dos instantes fugazes e irrealizáveis que teimam em assola-lo. Excepções destas não acontecem com frequência, ou não fossem elas excepções - pensou.
A nortada característica não se atrevia sequer a espreitar com medo de dissipar os pensamentos que o assaltavam enquanto que o dia se esgotava num passeio solipsista pelas dunas. A poucos minutos do pôr do sol o mar cobria-se de prata e espelhava todos os seus desejos naquele instante. Resolveu eternizá-lo numa fotografia:
Trinta e quatro graus no termómetro da manhã quente de domingo.
Às 11 horas chega despercebido à paragem do Carmo o eléctrico 191, um dos mais antigos do Museu do Carro Eléctrico da cidade do Porto. O bilhete custa 3 euros e meio e dá passagem para uma viagem de hora e meia ao longo da linha 18. Desde o Jardim da Cordoaria até Massarelos, com paragem e visita guiada ao Museu, vão sendo tecidos comentários aos monumentos mais marcantes do percurso ao mesmo tempo que, anacronicamente, vão passando as suas imagens mais remotas num monitor TFT.
De regresso ao ponto de partida surpreende-me a procissão da Senhora do Carmo saindo àquela hora da igreja barroca que contrasta a paredes meias com a neoclássica das Carmelitas.
A manhã acaba com uma subida à torre dos Clérigos, apesar do calor a recompensa é magnífica: 360 graus de Porto, um horizonte de telhados irregulares marcados pelo tempo e pela história.
A quem estiver interessado, esta viagem repete-se todos os domingos às 11 horas até ao fim de Agosto.
E se um dia acordares, mesmo antes do sinal do despertador, saíres à rua e não encontrares ninguém? Apenas a cidade. Deserta. Apenas as folhas dos plátanos pelo chão. Apenas a intermitência das luzes dos semáforos e nenhum automóvel a acelerar à luz do verde. Apenas o calor granítico que assoma do asfalto e desfoca o horizonte. Apenas tu. Apenas tu e mais ninguém. O vazio…
O festejo emotivo de alguém por detrás de um microfone da SIC. Pelos meandros da net há quem diga que foi o Nuno Luz, outros dizem que foi o Rodrigo Guedes de Carvalho. Eu cá digo que foi alguém bastante patriota (ou com aversão a bifes).
Ora tomem lá atenção:
Falo-te durante a minha jornada – e só a ti – desde o ponto de partida até ao final. E, embora morra sempre no mesmo local, podes ouvir-me a falar do meu túmulo se prestares atenção. Quem sou eu?
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
A marcha pelo emprego promovida pelo BE apresenta como banner um sujeito acocorado com uma esfregona na mão. Porquê? – pergunto.
Sabemos que esse “género” de emprego não falta. Não faltam vagas para empregos onde se trabalha, não faltam obras onde assentar tijolo, não faltam mesas de cafés onde servir, não faltam oficinas de automóveis onde rodar porcas e parafusos, não falta quem pague bom dinheiro para limpar matas, não falta sítio onde TRABALHAR. Mas a malta não gosta! A malta o que quer não é um trabalho, é um emprego. De preferência pago pelo erário público e das nove as cinco para não cansar muito. Esfregonas não são para mim, credo, sujar as mãos é que não. Eu que tenho um telemóvel topo de gama com câmara incorporada e 3G (seja lá o que isso for), eu que esgoto fortunas de dinheiro em sms’s, em neons azuis e vidros fumados para o meu cinquecento rebaixado, eu que me habituei ao consumismo, tenho de viver para ele, mas não fazendo a ponta de um corno. Que é como sabe melhor. Não, eu quero é chular o próximo da melhor maneira, vendo a minha mãe, o meu pai, os meu filhos, vendo até a própria alma… Mas esfregonas é que não!!!
Política online, uma outra forma de divulgação partidária. Lançado hoje, o esquerda.net é um projecto do Bloco de Esquerda em forma de portal. Tem arquivo de vídeo, podcast, opinião, informação diária, uma livraria e vejam só: uma linha aberta 800. Ou entreaberta, já que do outro lado apenas atendem entre as 14 e as 18 horas (horário laboral?!) Em tudo semelhante a um jornal digital, mas desta feita sem editorial.
A ideia é excelente e devem trabalhar neste portal dezenas de pessoas, fico curioso em saber quanto tempo durará…
Posso só recordar a esses eufóricos da futebolândia, que confinam as cores da bandeira a quatro linhas, que Portugal apenas venceu Inglaterra nas grandes penalidades e depois de 70 minutos a jogar em vantagem numérica?
Não acham que tanta necessidade de justificação da demissão de Freitas do Amaral revela, por si só, os motivos que sempre soubemos e sempre esperámos. Ou é só impressão minha?
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles