Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.Antóno Gedeão - amostra sem valor
Amostra sem valor
9500 visitas
365 dias
228 posts
97 comentários
10 categorias
1 ano de arco da velha
Perguntam-me frequentemente para que tenho um blog.
Ora! Para ter, evidentemente…
Sombras
O que quer ser não importa. Interessa o que é. Quem é realmente, como se comporta, como pensa e como se expressa. Não importa a luta que trava todas as manhãs, acaba por se deitar sempre com o mesmo sentimento. O Mundo em cima dele, ele em cima da cama. Derrotado, de olhos abertos para a noite que contorna de sobras as paredes do quarto. Estáticas. As sombras que só ele conhece e só ele vê. As sombras que encerra dentro dele.
Amarras
As amarras continuam a prendê-lo ao cais, apesar de ao longe o mar sereno. Ancorado na margem, à margem, recusa-se a partir. Um leme sem capitão, um barco sem vela. Um mapa sem partida ou destino. A maré consome-o contra um porto que já não é o dele, já não lhe pertence.

foto copyright: caedes.net
Peregrino
Sentia de facto que em certos dias era uma personagem estranha.
Via-se como um peregrino, mas não tinha meta nem mapa.
Queria ir directo, sem desvios, para um sítio onde se sentisse perdido.Gonçalo M. Tavares - O Senhor Calvino
Um cálice, uma voz…
No dia que antecedeu o dia mais longo do ano agarrei o tempo entre os dedos e deixei-o escoar devagarinho. O sol preparando o verão presenciou todos os momentos até se esconder por detrás da ponte. Foi cúmplice e testemunha de uma descontracção total, da partilha de olhares e de ideias, de uma tranquilidade de espírito que há muito não conseguia. O Douro vertendo-se no Atlântico trazia na brisa o cheiro a maresia para se fundir em sabores de um cálice de porto. Um dia sem dúvidas, sem medos, sem constrangimentos. Um dia livre, leve. Inigualáveis instantes de certezas lacrados ao som da voz que me aquieta.

Flash back
Até onde consegue recuar a tua memória?
Portugal
Estou na faculdade. À hora a que escrevo joga Portugal – México.
O meu departamento tem 4 pisos, não contando com o rés do chão e um piso inferior. Estes 4 pisos têm cada um cerca de vinte gabinetes de professores, muitos deles partilhados por 2 docentes. Levantei-me de propósito e percorri os 4 andares de uma ponta à outra. Encontrei ao todo 5 gabinetes abertos.
Qualidade de ensino? Onde?
Saudade
Há sentimentos que esmagam num só abraço.
É a ténue poeira espectral da saudade.
Tem uma força bruta entre os braços.
Espelhos e sombras
A superficialidade da aparência sempre preocupa os mais distraídos. Incapazes de verem mais além, mais fundo e de mais perto o que verdadeiramente importa. O que é realmente essencial e nos move. O que é, portanto, verdadeiro. Demasiada importância a uma fachada, julgam-na pelo que aparenta ser. Não abrem as portas para espreitar. Não se dão a tal trabalho. Atrevem-se a opinar pelo que lhes parece ser… Pelo que lhes apetece que seja. Por agora, do outro lado estão os outros… Mas, quando do outro lado se virem reflectidos? O que julgarão dessa vez?
Replay
Quero escrever. Preciso escrever. O cursor intermitente intimida e não me deixa senão estático frente a um teclado imóvel. Não ouço o clique das teclas na ponta dos dedos. Parecem mudas hoje, envergonhadas. Vibra no ar apenas aquela música que me viciou o dia em replays contínuos.
Número 1
A ler a entrevista de Vitor Baía no expresso.
Menino do cravo

Cavaco Silva tirou o encanto ao “menino do cravo”.
Preferia continuar a pensar quem seria aquela criança que se estica naquele gesto perpetuado. Preferia pensar quem seria hoje, o que faria na vida, onde estaria. Seria de esquerda ou de direita, que ideias teria daquele dia e do que os sucederam… Preferia ser eu a dar-lhe um nome, uma profissão, inventar-lhe um passado, um presente, um futuro. Preferia sonhar-lhe uma vida em vez de o saber emigrado, de saber que se chama Diogo Freire, que tem 35 anos e que é director financeiro em Londres…
Preferia sonhá-lo idílico como todos os sonhos, em vez de saber que NUNCA exerceu o direito de voto e que, daquele dia apenas guarda na memória a imagem de um “estúdio escuro”…
O “menino do cravo” agora tem um nome e nunca mais será o “menino do cravo”…
Sargaço
Sinto falta do cheiro a sargaço das manhãs de nevoeiro da Apúlia…
Sense of touch
Acordei hoje com vontade de rever uma vez mais o Crash.
Sem tempo para tal, relembro apenas uma citação dos primeiros minutos do filme.
We’re always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.
Lembra-te
No gabinete de um professor universitário, na estante pelo meio de capas de arquivo um pequeno cavalete diz assim:
“Lembra-te que um curso universitário não te tira as orelhas… Apenas as esconde”
Timing
Cíclico ou irrepetível.
Tudo tem um timing…
Esquecimento
Nós somos nosso próprio esquecimento - borracha do futuro a apagar o passado nas ardósias do presente.
Ondjaki in quantas madrugadas tem a noite
Junho
As paredes começam a apertar.
Outra vez.
O espaço é exíguo, o tempo curto…








