Romanceava a vida a todo o instante.
No entanto o seu livro não passava de alguns parágrafos soltos.
O escritor de parágrafos
Reencontros
É difícil sair da vida das pessoas.
Mas reentrar é ainda mais.
Manhãs difíceis

A janela aberta deixa entrar a luz da noite que se desfaz num estrondoso silêncio contra a parede do quarto. A intermitência de um néon vermelho, os arcos fugidios dos faróis dos carros que passam, a permanente luz amarela da iluminação pública. A madrugada vai alta, está desperto e de olhos esbugalhados nas sombras do tecto que o esmagam a cada minuto que passa. Daqui a pouco o despertador irá tocar avisando a alvorada de um novo dia. Custar-lhe-á levantar-se. Não pela preguiça, mas pelas perguntas sem resposta que o perseguem há já alguns dias. O problema dele, pensa, é deixar-se arrastar assim naqueles pensamentos que, apesar de recorrentes, o derrotam a cada confronto. Seria bem mais fácil deixar-se dessas cogitações existenciais, que sadicamente gosta de explorar e enfrentar aquele dia como se fosse o primeiro. Virgem, livre de rancores, de preconceitos, de opiniões pré-formadas. Se ao menos o conseguisse fazer por uma manhã que fosse…
Endógeno
Tardes como a de hoje fazem sentir-me activo. Lembram-me que ainda cresço dentro de mim. Relembram que ultrapasso fronteiras à força da dilatação dos dias.
Abril com R
Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois
Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.
Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.
Manuel Alegre
E porque Abril será sempre Revolução e terá sempre um cravo na lapela, relembro este blog
R de revolução
Paulo de Carvalho - E depois do adeus
Tinta permanente
Rasgou o manuscrito como quem rasga pedaços de alma, amarfanhou-o na mão direita e num gesto irreversível deixou-o cair no lixo. Prometeu a si mesmo que não mais voltaria a escrever o mesmo. Pensou que as canetas também são perigosas, armas que quando carregadas da pólvora errada disparam palavras que ferem. Baionetas que esventram, que sangram, que purgam sentimentos. Por isso não as usam as crianças. Desenham sempre a lápis. A lápis de cor.
Auto pilot
Não quero mais saber se o tempo fica ou vai, se para ou anda, se está suspenso ou ondula na maresia… Não quero saber do que passou ou do que virá, nem tão pouco do que acontece agora, aqui, ou do outro lado do mundo. Vou fazer um parêntesis, recto ou curvo, não importa tanto me faz. Vou parar nem que seja por uns dias, umas horas uns segundos que sejam, vou soltar as amarras e largar as rédeas. Vou entrar em auto-pilot de mim mesmo.
radio.blog
Para dar uma batida diferente ao rádioblog e para ver se chamo mais depressa os fins de tarde de verão, adicionei esta fantástica malha, Only in New York de Demon Richie.
Trintaeum
Às quartas feiras vale a pena passar pelo trintaeum na carismática rua do passeio alegre. Carlos Coelho é o Dj residente que sonoplastisa o início da noite em slow motion. Ao ritmo do downtempo vai passando jazz, dum’n’bass ou future beats num ambiente revivalista e de uma maresia acolhedora.

Um post em 10 segundos
Gosto do cheiro a terra molhada.
Gosto dos reflexos que as luzes da noite deixam nos vidros dos carros que passam.
Gosto de estar sozinho quando estão todos a dormir.
Gosto do tiquetaquear do relógio por cima da lareira acesa.
Gosto de ouvir contar estórias.
Não gosto de marisco.
Não gosto de dias de chuva.
Não gosto de seringas e agulhas.
Não gosto de dormir pouco.
Não gosto de estar sem internet.
1º aniversário
Parabéns ao Peopleware, que visito diáriamente.

Imaginações
[…] As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar. […]Herberto Hélder - Súmula
Até quando?
Exigimos aos outros aquilo que não exigimos de nós, é mais fácil assim. À mínima falha deixamo-nos desiludir. Sabemos da intangibilidade da perfeição, no entanto, continuamos teimosamente a persegui-la à custa de cabeçadas na parede. Até quando esta insistência?
Momentos engraçados

Quanto pagas no barbeiro?
- Deixo lá couro e cabelo!
Sísifo

Há dias assim…
Publico ou não publico ?
Quando se tem medo de publicar um post, muito provavelmente, esse deve ser um post a publicar…
Coisas simples
A tarde consumiu-se em frente ao mar. Entre conversas soltas o sol aquece a alma amarfanhada que os óculos escuros escondem. O discurso é lento, calmo, muito tranquilo, a tarde é longa e hoje não há pressas… Os espelhos do Homem do Leme reflectem a luz que brilha na crista de cada onda, cintilam a plenitude das coisas simples. E assim é, as melhores recordações não são feitas de mais do que coisas simples…
Um dia concluiu…
Que de nada lhe valia perseguir as suas quimeras…
Acabava sempre perseguido pela realidade…
E daí?

Tomamos tudo como nosso, tomamos tudo como eterno. Agarramo-nos às coisas com a força de raiz de eucalipto. Em vez de as dominar, amarramo-nos como marionetas aos seus cordéis, subjugados aos destinos de uma mão superior. Arrastados pelo tempo vamos esperando o fim sem nunca o desejar. Escravos entrincheirados entre vontades cegas do que somos e do que queremos ser.
Segunda-feira

Talvez amanhã
Stereophonics - Maybe Tomorrow
I’ve been down and
I’m wondering why
These little black clouds
Keep walking around
With me
With me
It wastes time
And I’d rather be high
Think I’ll walk me outside
And buy a rainbow smile
But be free
They’re all free
So maybe tomorrow
I’ll find my way home
So maybe tomorrow
I’ll find my way home
I look around at a beautiful life
Been the upperside of down
Been the inside of out
But we breathe
We breathe
I wanna breeze and an open mind
I wanna swim in the ocean
Wanna take my time for me
All me
So maybe tomorrow
I’ll find my way home
So maybe tomorrow
I’ll find my way home
Bock

Hoje a casa está vazia, estão todos para fora. Hoje a casa está vazia… de gente. Hoje só ele me recebe e preenche o vazio humano. Estava a dormir na sua cama no momento em que rodei as duas voltas da chave na fechadura antes de entrar, tenho a certeza, conheço-o bem… os seus olhos pequenos de sono não me mentem. Apesar de o ter acordado sinto-lhe a felicidade em me ver chegar, na forma como pende as orelhas e na frenética cauda que parece abanar-lhe todo o corpo. Abro-lhe a porta da varanda e parece adivinhar os meus passos, à minha frente abre o caminho até ao quarto, onde se vai deitar placidamente no mesmo sítio de sempre. Suspira uma vez, bem fundo, e ali fica, atento a todos os meus movimentos, não lhe escapa um que seja. Enquanto escrevo vem de mansinho pousar o focinho no meu colo como quem pede mais atenção e é deliciosa a expressão com que me olha nos olhos… Não fala, não precisa, duas festas por detrás da orelha direita chegam para o satisfazer e lá volta para o tapete onde se deita à espera que eu acabe de escrever. Depois vai ver-me desligar o computador e ao mesmo tempo que me deito, vai levantar-se, porém, sem sair do sítio, vai esperar alguns segundos e, se nada lhe disser vai aproximar-se devagarinho e pedir-me, ao mesmo tempo que pousa delicadamente o focinho sobre a cama, para se deitar aos meus pés. E eu, eu vou deixar, não tenho outra solução senão render-me aos seus feitiços.








