Vento norte, sol, uma visibilidade invulgar na cidade do Porto, uma excelente tarde para tirar a bicicleta da sua inactividade de 3 meses. Por entre os lagos do parque os pais passeiam orgulhosamente os seus pequenos hary potters, tartarugas ninja e as habituais princesas e fadas madrinhas, numa tentativa de dar uso ao dinheiro que empenharam na fantasia carnavalesca da festa do jardim de infância… As crianças pela mão exibem vaidosamente o que não são nos restantes dias do ano, à excepção talvez dos seus sonhos.
Chegando à primeira linha do mar, o antigo CLIP espera desde a capital da cultura de 2001 a sua reconstrução e transformação em local de diversão nocturna, a Kasa da Praia. Depois de avanços e recuos do IPPAR o impasse dá lugar às ruínas de um edifício histórico. Mais um entre tantos.
Na Avenida, muita gente, o cenário habitual em dias como este. No Homem do Leme, entre jornais e revistas, exorcizam-se as preocupações do trabalho. Um pouco antes da esplanada, num recanto construído ao abrigo do vento mas não ao abrigo do tempo, um grupo de reformados na 3ª idade – um grande grupo, mais de 15 seguramente – jogam as cartas na mesa, fazendo não mais do que esperar a sua própria morte. Talvez por essa razão eu nunca tenha gostado de jogar cartas.
Junto à barra do Douro, à entrada do Passeio Alegre, a poesia do jardim faz-se sentir e preenche toda a aura circundante. Por lá caminhou e viveu o amigo mais íntimo do sol, Eugénio de Andrade.
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis — assim nuas.
Certamente, em tardes como esta, terá saído ao jardim. Por lá terá perseguido um poema, um verso ou até uma sílaba. Ter-se-á sentando junto à fonte e contemplado as sombras ondulantes que as palmeiras deixam no chão.

Regresso a casa cansado e com um sentimento estranho. Andamos muitas vezes distraídos, olhamos sem ver o que nos rodeia, introvertidos que estamos nas nossas vidas. Não nos apercebemos que por onde passamos e no chão que calcamos há sempre uma história, há sempre uma vida. Uma vida que não acaba nunca. Está escrita no tempo.
Andar só, passear só, estar só sabe bem mas por vezes não pensas na mudança que seria na vida de álguem fazeres o mesmo percurso acompanhado… E na tua vida?… Porque preferes fazê-lo sozinho?… Eu sei porque prefiro a solidão…
Comment by :) — Wednesday, 1 March, 2006 @ 17:23
Eu estive lá
Ele não esteve só.
Quer dizer, de vez em quando esteve, com o i pod.
Mas foi por pouco tempo
Comment by Critico — Thursday, 2 March, 2006 @ 23:19