Monday, 27 February, 2006 20:22

Entre o Molhe e a Avenida há tanta gente a sós

Arquivado por francisco em: pessoal

Vento norte, sol, uma visibilidade invulgar na cidade do Porto, uma excelente tarde para tirar a bicicleta da sua inactividade de 3 meses. Por entre os lagos do parque os pais passeiam orgulhosamente os seus pequenos hary potters, tartarugas ninja e as habituais princesas e fadas madrinhas, numa tentativa de dar uso ao dinheiro que empenharam na fantasia carnavalesca da festa do jardim de infância… As crianças pela mão exibem vaidosamente o que não são nos restantes dias do ano, à excepção talvez dos seus sonhos.

Chegando à primeira linha do mar, o antigo CLIP espera desde a capital da cultura de 2001 a sua reconstrução e transformação em local de diversão nocturna, a Kasa da Praia. Depois de avanços e recuos do IPPAR o impasse dá lugar às ruínas de um edifício histórico. Mais um entre tantos.

Na Avenida, muita gente, o cenário habitual em dias como este. No Homem do Leme, entre jornais e revistas, exorcizam-se as preocupações do trabalho. Um pouco antes da esplanada, num recanto construído ao abrigo do vento mas não ao abrigo do tempo, um grupo de reformados na 3ª idade – um grande grupo, mais de 15 seguramente – jogam as cartas na mesa, fazendo não mais do que esperar a sua própria morte. Talvez por essa razão eu nunca tenha gostado de jogar cartas.

Junto à barra do Douro, à entrada do Passeio Alegre, a poesia do jardim faz-se sentir e preenche toda a aura circundante. Por lá caminhou e viveu o amigo mais íntimo do sol, Eugénio de Andrade.


Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis — assim nuas.

Certamente, em tardes como esta, terá saído ao jardim. Por lá terá perseguido um poema, um verso ou até uma sílaba. Ter-se-á sentando junto à fonte e contemplado as sombras ondulantes que as palmeiras deixam no chão.



Regresso a casa cansado e com um sentimento estranho. Andamos muitas vezes distraídos, olhamos sem ver o que nos rodeia, introvertidos que estamos nas nossas vidas. Não nos apercebemos que por onde passamos e no chão que calcamos há sempre uma história, há sempre uma vida. Uma vida que não acaba nunca. Está escrita no tempo.

2 Comentários »

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  1. Andar só, passear só, estar só sabe bem mas por vezes não pensas na mudança que seria na vida de álguem fazeres o mesmo percurso acompanhado… E na tua vida?… Porque preferes fazê-lo sozinho?… Eu sei porque prefiro a solidão… :)

    Comment by :) — Wednesday, 1 March, 2006 @ 17:23

  2. Eu estive lá
    Ele não esteve só.
    Quer dizer, de vez em quando esteve, com o i pod.
    Mas foi por pouco tempo

    Comment by Critico — Thursday, 2 March, 2006 @ 23:19

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[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles