2009 será melhor!

2009 será melhor!

…tem outro encanto.

Benjamin Reece é realizador e um criativo empresário com a ambição de expandir os horizontes, desdobrando a humanidade com os outros. Pois juntamente com um grupo de amigos teve uma ideia simples: Fifty people, one question. «It’s a simple question. And the answers can lead us anywhere. »
Deixo aqui os 8 minutos de vídeo que estão disponíveis no vimeo.
As pessoas são diferentes, os ares e os olhares, as presenças e as respostas também. Respostas vulgares, umbiguistas, inusitadas, espontâneas ou geniais, estúpidas, desesperadas, emocionadas, emocionantes, surpreendentes, infantis ou incomensuravelmente intangíveis. Há de tudo! Mas há uma, uma em particular, que me prendeu. Brutalmente sentida, suspirada num cerrar de olhos de um adolescente.
Vejam, escutem, e interroguem-se também.
E se, como eu, quiserem saber de quem é a banda sonora sigam por aqui ou por aqui.
Se durante o processo de construção,
o autor vos remeter para uma estrutura quase demente
É porque foi usado mais por demais coração
condição absoluta no limiar do obstinadamente.
Esculpindo frases ao sabor da inspiração,
revestidas por minimal batida envolvente
Construindo fortalezas muralhadas de emoção,
provocando aqui e ali a moralidade digente.
E se, de repente, o sonho ganha asas de vulcão,
derramando palavras e punhais principalmente
Requerendo seguramente mais que uma audição,
o que é, por vezes, não existe, mas sim aquilo que se
pressente.
Após longas e repetidas noites de agitação,
o resultado surge… emergente
Esvai-se a permanente inquietação…
Entretanto, Sobretudo, Praticamente.
Sintonizava-se no Porto há uns anos em 90.0 FM. Era a rádio Voxx e introduzia em Portugal novas correntes musicais: house minimal, drum n’ bass e muita musica electrónica. Dedicada às minorias, a Voxx primava pelos seus jingles autopromocionais. Lembro-me de uns quantos, com saudade, mas confesso que recorri ao google para encontrar outros.
Aqui ficam, para quem se lembra:
Voxx! Parecendo difícil não é nada fácil
Voxx! Não confundir a obra-prima com a prima do mestre-de-obras
Voxx! Rádio Disfunção Portuguesa
Voxx! Uma rádio amarela para um país cinzento
Voxx! Emissora caótica portuguesa
Boxx!! Grão a grão, apanha a galinha uma congestão
Voxx! A número 1… dos ouvintes da Voxx
Voxx! Uma imensa minoria
Boxx! Já toureei em piores praças
Boxx!! Eu num ouçuu
(ouve-se um relinchar ao longe) - Tira os olhos da aveia, cavalo!
BOXX! Um processo evolutivo no lado descendente da curva
BOXX! Onde criatividade rima com bitoques de alumínio
Tudo o que se passa, passa ao lado da Voxx
Voxx! A melhor rádio cá do prédio
Tudo o que se uva, uva na Voxx
… why can’t everything be in it’s right place?
Fui sempre, e continuo a ser, um acérrimo defensor de Barack Obama nestas presidenciais Norte-Americanas, acredito que ele poderá mesmo romper com os contornos políticos que há muito imperam nos cada vez menos imperiosos Estados Unidos. Vibrei de emoção com o soberbo discurso, sem papel, do indigitado… YES, WE CAN, são palavras que não lhe caem apenas da boca, para ele, não são sequer palavras, são vontades em que acredita, e faz acreditar.
Por outro lado, tenho as minhas sérias dúvidas que Obama não tenha ganho este sufrágio ajudado pela cor da sua pele. Fosse Obama branco, o quadro teria sido pintado a outra cor. Infelizmente parece-me que, cada vez mais, as pessoas acreditam não nas vontades, não nas ideias, não nas convicções e competências, mas em ícones, como que pudessem de repente, per si, virar mundos e fazer milagres.
Olho para os jornais, ouço os ‘opinion makers’ e dá ideia que já não há guerras no médio oriente, parece que as bolsas estabilizaram, parece que a crise financeira acabou… parece que a eleição deste novo presidente funciona como uma espécie de antídoto ao 11 de Setembro. Aliás, o headline «o dia em que o mundo mudou» foi usado naquela funesta data e agora, sete anos depois, repetido com a eleição de Obama.
A continuar assim, Obama poderá mesmo curar as minhas alergias e demais maleitas de que sofro. Eu acho até que estas duas noites já dormi melhor!
Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva.
Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram.
Jorge de Sousa Braga
I feel the rain droping in my soul, and i just wanna drive through this mind games of mine…
Cheirava já a fumo da lareira e às primeiras terras molhadas, cheirava a caldo verde das couves ‘cegadas’ na mesa de lousa, a frio e a arroz de tomate. Cheirava a mosto e a vinho novo derramado na terra, cheirava ao fim de férias. Até o anoitecer tinha um cheiro só dele, quando as cores escuras do céu se confundiam com o horizonte.
Cheiros coleccionados, todos na edição de Outubro do catálogo das memórias…

Cartoon de António Jorge Gonçalves

Ontem também fabriquei um sofá!!
Fui ao Ikea, comprei as peças e os parafusos e quando cheguei a casa apertei tudo no sítio…
Adenda: A outra face da mesma moeda, a que mostra o valor de cunho.
«O Magalhães é originalmente o Classmate PC, produto concebido pela Intel no sector dos NetBooks, que surge em reacção ao OLPC XO-1, que foi idealizado por Nicholas Negroponte.»
[…]
«Este computador ultraportátil já está à venda em vários países, inclusivamente no Brasil, mas nem sempre é conhecido pelo mesmo nome»
[…]
«Na Indonésia o «Magalhães» é conhecido pelo nome de «Anoa», na Índia é o Mileap-X series, na Itália é o Jumpc e o no Brasil é conhecido por Mobo Kids. O Governo do Vietname percebeu o sucesso da oferta e já o colocou nas escolas a preço reduzido. Uma ideia agora adoptada por José Sócrates»
Devia ter eu os meus 7 ou 8 anos e é uma das minha memórias mais remotas… ou pelo menos das mais fortes e mais presentes…
Naquele início de Verão ia todos os dias à praia. A banda sonora do caminho feito pelo FIAT 127 conduzido por uma prima mais velha era, invariavelmente, o novo álbum dos Trovante. Uma cassete branca com letras azuis! Entre a ‘Perdidamente’, com os intemporais versos da Florbela Espanca, e a ‘Fiz-me à cidade’ o caminho era sempre o mesmo: partia da Rua de Monte Alegre, onde morava a minha avó, descia a Constituição, seguia pela Via Rápida, atravessava a ponte de Leça junto ao Porto de Leixões, passava a refinaria da Galp, o Cabo do Mundo, e subia depois alguns kms da costa até à praia da Agudela.
Foi num desses percursos que um dia me detive na lírica da ‘125 Azul’. Poderia quase afirmar que terá sido o gatilho das minhas cogitações cognitivas conscientes e que me dispararam para pensamentos metafísicos, não sei, Piaget que o diga…
Foi quando regressava num final de tarde, de cabelo molhado e ainda com o sal do mar colado aos lábios e à pele seca, que aqueles versos começaram a fazer algum sentido interpretativo. Num Big-Bang, o meu universo reflexivo começava a formar-se ali, sentado no banco da frente, em trânsito, numa sopa ainda muito primitiva de conhecimentos, de experiências e de sensações…
«entre a dúvida do que sou e onde quero chegar»
«será que existe em mim um passaporte para sonhar»
«e a fúria de viver é memo fúria de acabar»
Agarrado àquelas palavras, lembro-me da onda de calor que era empurrada pelo vento através das janelas abertas do carro, e que me empurrava também para dentro de mim; cada vez mais, fervilhando nas emoções que a música me oferecia. A dúvida, o medo, os sonhos, a consciência da tenra idade e do caminho dos anos que tinha pela frente, a distância do desconhecido, eram as preocupações que meteoricamente me começavam a assaltar.
«com o ar na cara vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu»
«talvez um dia me encontre»
«assim, talvez me encontre»
Impressionante pensar como tal memória consegue estar ainda tão presente, incrustada, verdadeiramente tatuada naquilo que sou, ou penso ser, hoje. São aquelas simples viagens de ida e volta à praia, são aqueles pensamentos que me bailam quando ouço alguma das músicas dos Trovante. Inquietantemente, 20 anos depois, sinto-me, de repente, sentado naquele carro, naquele percurso, naquela chuva de meteoritos interrogativos, afogado ainda nas mesmas dúvidas… Mas desta vez, dúvidas mais conscientes e, portanto, mais dilacerantes…
Será o meu cosmos a dilatar? A julgar pela entropia, sem dúvida!
Temos hoje no DN um menino amuado.
Este verão pode até não estar a aquecer muito do lado de fora da janela mas, aqui do lado de dentro, o meu pc está a querer puxar a brasa à sua sardinha…
Enquanto eu vou queimando os meus neurónios ele vai-me queimando os dedos!!
Talvez esteja já a reclamar umas férias…

The Lead India campaign was launched on January 1, 2007. The campaign has completed its first two phases and is in its final stage. It was created by the JWT team, led by Agnello Dias, national creative director, JWT.The first phase of the campaign was a series of print ads titled India Poised, along with a commercial starring actor Amitabh Bachchan. This phase provoked the thought whether we are really capable of achieving what the world is expecting of us as a nation. The second phase of the campaign, which started in August, revealed the Lead India initiative and asked the audience what they would ‘do’ if they were the leaders of the country. A lot of emphasis was laid on pushing the audience to aggressively ‘do’ something for the country. A series of print ads titled Do were run in newspapers with actor Shah Rukh Khan being the lead face.
The other members of the JWT team that worked on the campaign include Vistasp Hodiwala, senior creative director (copy); Debu Purkayastha, associate vice-president (art); Arkadyuti Basu (copy); and Vinayak Gaekwad (art).
Vistasp Hodiwala explains that the task for their team in the third phase was different from the first two phases. While the first and the second phase created awareness and invited participants, the brief for the third phase was to garner as much support from the audience for the eight final contestants.
The insight for the commercial is that most people in the country are aware of the prevalent economic, political and social troubles, but nobody wants to do anything about it. People know the solution to the problems, but they prefer to complain rather than act.
The commercial shows a tree that has collapsed in the middle of the road in a crowded city. The fallen tree has created a huge traffic jam, people in cars are honking and cursing each other, there is no policeman in sight. A boy sits in a bus watching the chaos. He is perplexed, not able to understand why people are making such a ruckus about a simple problem. So, he gets down and starts walking towards the tree.
At that moment, it starts raining. On reaching the tree, the little boy starts pushing hard to remove it from the road. Suddenly, everyone calms down and focuses on the boy. The child’s initiative transforms into a revolution as all the people caught in the traffic jam join in to help him remove the tree. The line that appears at the end of the commercial says, ‘Seeking tomorrow’s leaders today. Lead India – the search is on.’
Milind Dhaimade, ad filmmaker, Equinox Films, directed the film. The background song that runs throughout was written by Gulzar and set to music by Shankar Ehsaan Loy.
According to Hodiwala, the tree in the commercial is a metaphor for the state of the nation today. The whole idea of the commercial is to combat the cynicism prevailing in the country and generate serious appeal. The commercial aims to inspire its audience to back the eight young contestants who are running for the position of ultimate leader and provide them support with their votes.
The commercial will run on air for a period of eight-10 weeks. There are two versions of the commercial. One is a full length music video of more than two minutes’ duration to be aired mostly on music channels. The other one is a shortened version of 80 seconds, which will run as a regular commercial.
TOI and JWT have also planned a print campaign along with the TVC for the third phase. The print campaign shows the eight contestants together with lines such as ‘I am the idea that India awaits’, ‘I am the inspiration that India expects’ and ‘I am the change that India desires’. The print version of the campaign follows the idea in the TVC and provokes the audience to vote for the contestants. More ads of the campaign will be released with more lines in the coming days. The agency will have outdoor hoardings and advertisements for the campaign and may also include radio in the future.
TOI has partnered with STAR One to launch the show of the same name, Lead India, on December 8. The show will have 10 episodes that will be aired every Saturday at 8 pm on STAR One with a simulcast on STAR Utsav. In the final stages of the show, the participants will propose a dream project, envisage a vision statement and convince the jury to grant Rs 50 lakh to have the project executed.
The first show of Lead India will be hosted by Amitabh Bachchan. Later shows will be anchored by actor Anupam Kher. The jury for the show will comprise Javed Akhtar, Kiran Bedi and TOI senior editor Vikas Singh
[fonte]
Na edição deste ano do Rock in Rio, Amy Winehouse, em jeito de pedido de desculpa pela decadente imagem, afirmou ter Portugal no coração…
… e uma de James Martin no fígado, uma de coca no nariz, e ainda uma de ganza nos pulmões…
Dobrei todas as sílabas, vinco por vinco, e guardei-as na gaveta.
Pendurei as palavras na cruzeta e fechei o armário.
Hoje sou só eu, e o silêncio e, talvez, a chuva…
Eu sei que este tipo é um azeiteiro, salvo raríssimos set’s, mas não posso deixar de o invejar…

Ressuscito este espaço movido pela vontade de não o atirar também para o limbo caótico das imensas coisas que inicio e não acabo…
A mudança do ritmo e da velocidade que me roubam os reflexos e as reflexões a que gosto de me entregar não podem ser motivo do abandono deste meu modesto canto da world wide web, ainda que visitado por uma minoria de conhecidos que aqui vêm espreitar os estados da alma do dia ou das noites transformadas em madrugadas…
Neste post, sou movido também pelas aspas que abrem e fecham uma citação de stendhal…
“deseja tudo, espera pouco, não peças nada”
Genialmente simples, tomo-lhe conhecimento através do Pedro de Vasconcelos numa entrevista, também ela simples, também ela genial, numa revista que me esperava, aberta nessa pagina em cima da mesa de um dos meus bares preferidos junto ao mar do Porto, exposta ao sol pueril da manhã de domingo…
Entra desta forma casuística, porém brutalmente poética, para o segundo lugar dos pensamentos que recolho aqui e ali… A primeira posição, inabalável, continua presente no rodapé deste blog….
Sabes bem que o silêncio ecoa de uma forma estrondosa quando as palavras que não dizes, que não queres dizer, não tem o som, não tem o sabor, não têm o sabor de quem sente, de quem diz o que sente, de quem sente o que diz…
Sabes bem
Sabes bem que não são esses os silêncios, que não são essas as palavras que oiço… que anseio, que oiço sem que as tenhas ainda, ainda dito…
Em conversa casual sobre o que somos ou o que já fomos, salta-me à memória uma frase que li num livro que, infelizmente, já não sei identificar, mas que, felizmente, ainda guardo toscamente escrita num pequeno caderno de capa azul que me ofereceram algures em 1999:
“É com os acasos que nos atiram da direita e da esquerda que urdimos o nosso destino. Acreditamos dizer o que queremos, mas é quem nos fez falar pela primeira vez que fala escondido por dentro das nossas palavras.”
A citação é, se a memória não me falha de Jacque Lacan…
Se lhe perguntassem em que pensava, não saberia responder. Provavelmente não ouviria sequer a pergunta nem que lha gritassem ao ouvido. Sintonizado apenas nos passos cada vez mais próximos, de alguém, de algo, de alguma estranha forma que não reconhece mas pressente. Sincopados, certeiros. Avassaladores. Tinha medo. Encolhia-se a um canto da saudade e empurrava os joelhos contra o peito. Do silêncio surgiam as vozes que o inquietavam, vozes que ecoavam sonoras num conflito que não tem forças para vencer. Acocorado, perdido no pensamento do antes e do depois, deixa-se absorver pelas chamas que lhe sombreiam o campo de visão em imagens fugidias, cintilantes…
… palavras para quê?
Hoje não há palavras… Há sons que meditam…
Apesar de a vontade ser a de ficar em casa a afogar a dor entre as reminiscências cada vez mais ténues dos dias que, afinal, foram quase sempre indistintos, acabou por empurrar o corpo pela noite obrigando-o às luzes de uma madrugada fria.
Alheio ao espírito a que a quadra natalícia sugere, atravessou a cidade de bar em bar, encarneirado por uma multidão onde não se reconhece nem se vê, narcotizado em ébrios espaços de copos de whisky e fumo de cigarro. Traficado pelo valor mais baixo da sua auto estima.
Os ponteiros no relógio de pulso contavam não o tempo, que lhe parecia estático, mas as partículas cada vez mais densas de um obnubilado sentimento de despedida; esse expoente intransigente a que, obstinado, se entregava.
Como um rio sem margem, deixou-se levar sem as vontades próprias que tanto valoriza; sem a garra que recentemente se tinha descoberto; sem o poder da escolha e da decisão. Tropeçou em caras de outros tempos, em abraços e sorrisos de ocasião, e tudo lhe pereceu igual, tudo lhe pareceu feito de uma estúpida e imutável resistência inconsequente.
Volta a casa pela hora do lobo, de alma vazia e olhos rasos e traz nas mãos, por entre os dedos, as memórias que já lhe escapam.
Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.
Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão par ao campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!…
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores…
Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! –
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendia…
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta:
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- …no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água…
…um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
…O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
comos e fosse uma festa?… –
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá par ao cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!…
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
Manuel da Fonseca - dito por Mário Viegas
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte, violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas, portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever de falar
Mário Cesariny - You are welcome to Elsinor
If I’d asked my customers what they wanted, they’d have said a faster horse.
Henry Ford
Se procura algo que o Google encontra mas não lhe quer mostrar.
Procure do outro lado. O lado mais negro.
Procure no Google Pirate.
Have fun
[…]
Peço-lhe apenas que seja sempre indulgente em relação às respostas que talvez o venham a deixar de mãos vazias; pois, no fundo - e precisamente nas coisas mais profundas e importantes - estamos indescritivelmente sós, e para que alguém possa aconselhar ou mesmo ajudar outra pessoa, muita coisa tem de acontecer, muita coisa tem de dar resultado, toda uma constelação de coisas tem de se conjugar para que isso aconteça.
[…]
Rainer Maria Rilke, Viareggio, 5 de Abril de 1903
in Cartas a Jovens Poetas
Meu telemóvel tocou.
O display mostrava um número que não conhecia, portanto, atendi a medo:
«Estou sim?»
Do outro lado, depois de alguns segundos de ruído de fundo, uma voz:
«Pai?»
PORRA!!
Felizmente era engano…
Esta é a hora
Sem nunca o desejar sempre o esperei
Chegou o momento, chegou a hora
Veio com o vento do Outono e levou-te embora
de mim, de nós
Para onde nunca o saberei
Por que choro ao ver-te partir?
Quando já há muito deixaste de viver
para apenas existir
e lutar por ficar
resistir ao tempo e durar
Para que essa luta, existência
e esta lágrima que resbala
eternizem a enorme ausência
que deixas em teu lugar
sentada no sofá da sala.
07.11.2002
Não escondo a minha admiração por Miguel Sousa Tavares, quer pela sua escrita (crónica, reportagem ou romance) quer pela sua postura independente, ou ainda pela mordaz frontalidade com que se pronuncia cruzando muitas vezes a ténue linha que lhe separa a sinceridade da arrogância. Costumo acompanhar todas as, raras, entrevistas com que presenteia os leitores. Aqui fica a última, conduzida por Carlos Vaz Marques no programa da TSF, Pessoal e… Transmissível. Não é, a meu ver, a mais interessante dele mas, sem dúvida uma entrevista a ouvir com atenção.
… Estou oficialmente deprimido!
Há já uns tempos largos que a categoria ‘política’ não tem sido usada neste blog. As razões são mais que muitas e não as vou aqui expôr. Deixo apenas uma visão, lúcida como sempre, de Ricardo Costa sobre a actualidade:
Deserto
Império do Sol
Tão perto
Império do Sol
Prova dos nove
Da solidão
Cega miragem
Largo clarão
Livre prisão
Sem a menor aragem
Sem a menor aragemQue grande mar
De ondas paradas
Que grande areal
De formas veladas
Vitória do espaço
Imensidão
Ponto de fuga
Ampliação
Livre prisão
Anfitrião selvagem
Anfitrião selvagemNo deserto
Ouço o fundo da alma
E, se a areia está calma,
O bater do coração
É que tanto deserto
Tão de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscarCarlos Maria Trindade - O Deserto
Ouvir, pela voz da Mariza
Este blog diz PIAÇABA!
Paul Potts. Não deveria precisar de mais palavras.
Vou ser breve. O vencedor do programa britânico “Aqui há talento”…
Não sei se aqueles que me acompanham neste blog se lembram deste meus post de há um ano.
Desde essa altura que vos quero disponibilizar em audio ou vídeo essas aveludadas palavras.
[dowload]
Mais vale suar do que passar pela vida como um fantasma perfumado!
E fiquei a pensar que tipo de água de colónia usarei…
Durão Barroso e a crise do sistema do ensino burguês e as medidas anti-operárias e anti-populares…
E uma vez mais acredito que a desilusão tem o mesmo berço da ilusão. São ambas feitas da mesma matéria. Nascidas do mesmo sonho. Uma o início dele, outra o seu fim… Complementar-se-ão? Uma o arquétipo de um desejo, a outra a sua materialização no instante em que abrimos os olhos; a fracção de segundo em que tomamos consciência de um novo ciclo de reacções cognitivas…
Por agora anoiteço, amanhã caminharei de novo de ilusão em (des)ilusão…
Se os meus dedos neste blog não escrevem é porque dele têm medo. Não querem, não deixam. Guardam para si o tremer quase estático da inquietude dos dias; das sombras das noites que já anunciam o fim do verão.
The wounds on your hands never seem to heal
I thought all I needed was to believeHere am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or the beat of my heart
My love wears forbidden colours
My life believesSenseless years thunder by
Millions are willing to give their lives for you
Does nothing live on?Learning to cope with feelings aroused in me
My hands in the soil, buried inside of myself
My love wears forbidden colours
My life believes in you once againI’ll go walking in circles
While doubting the very ground beneath me
Trying to show unquestioning faith in everything
Here am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or a change of heartMy love wears forbidden colours
My life believes
My love wears forbidden colours
My life believes in you once again
David Sylvian
A ver também por aqui
Dos silêncios e dos conflitos a que se entrega traz consigo um tigre que passeia pela trela como quem passeia um cachorro. Ninguém o vê. Apenas tu. E eu. Sinto-lhe o rugir de felino selvagem. Predador. Sinto o calor ofegante de um respirar angustiado. Consigo ouvir as correntes que se arrastam pelo chão a cada passo. Caminha ainda pelos corredores exíguos e bafientos e ao fundo a luz amarela da arena começa a ofuscar-lhe o olhar. Em breve gladiará perante um coliseu vazio de gente.
Nos seus silêncios com que vai preenchendo as páginas que deixa em branco, a tinta é de bruma mas é com sorrisos vai acrescentando reticências aos parágrafos…
Não sei ao certo se por bem ou se por mal, pouca actividade no blog.
Deixo isto por aqui só para dizer que ainda ando por aí.
Lembro-me dos velhos discos de vinil que ouvia em criança e início de adolescência. Não tinha muitos que na altura já caíam em desuso; uns quantos de histórias infantis, alguns de música pop e rock dos anos 80 e outros tantos “herdados” dos meus pais ou irmão mais velho. Recordo ainda o top dos mais ouvidos: a banda sonora da série televisiva ‘Twin Peaks’, a banda sonora do filme ‘Once Upon a Time in America’, um álbum duplo do Carlos do Carmo e o mais percorrido pela agulha: a discografia do Zeca Afonso.
Tal como nas cassetes que alimentavam o mesmo aparelho ao centro do quarto, os discos de vinil tinham uma particularidade que me atraíam: o Lado B. Os estalidos sincopados de fim de ranhura em espiral que pediam sempre o outro lado do disco. Não era propriamente o resto das músicas que me fascinava mas sim, simplesmente, a existência de um outro lado.
É nos tempos do vinil que me sinto tantas e tantas vezes. É lá, no lado B, no outro lado. No outro lado da vida. No lado B da vida. Um limbo entre o ser e o existir. Como se eu próprio fosse uma agulha que percorre as voltas (às voltas?) de um destino, de uma música, de um som… Um estado que não é passageiro mas sim cíclico, como se se tratasse mesmo do fim de uma ranhura em espiral que trepida e pede uma volta no disco. Uma reviravolta (?).
Leitura obrigatória do cada vez mais surpreendente Bruno Nogueira.
Um excerto que vos redirecciona para o texto integral: