Ressuscito este espaço movido pela vontade de não o atirar também para o limbo caótico das imensas coisas que inicio e não acabo…
A mudança do ritmo e da velocidade que me roubam os reflexos e as reflexões a que gosto de me entregar não podem ser motivo do abandono deste meu modesto canto da world wide web, ainda que visitado por uma minoria de conhecidos que aqui vêm espreitar os estados da alma do dia ou das noites transformadas em madrugadas…
Neste post, sou movido também pelas aspas que abrem e fecham uma citação de stendhal…
“deseja tudo, espera pouco, não peças nada”
Genialmente simples, tomo-lhe conhecimento através do Pedro de Vasconcelos numa entrevista, também ela simples, também ela genial, numa revista que me esperava, aberta nessa pagina em cima da mesa de um dos meus bares preferidos junto ao mar do Porto, exposta ao sol pueril da manhã de domingo…
Entra desta forma casuística, porém brutalmente poética, para o segundo lugar dos pensamentos que recolho aqui e ali… A primeira posição, inabalável, continua presente no rodapé deste blog….
Sabes bem que o silêncio ecoa de uma forma estrondosa quando as palavras que não dizes, que não queres dizer, não tem o som, não tem o sabor, não têm o sabor de quem sente, de quem diz o que sente, de quem sente o que diz…
Sabes bem
Sabes bem que não são esses os silêncios, que não são essas as palavras que oiço… que anseio, que oiço sem que as tenhas ainda, ainda dito…
Em conversa casual sobre o que somos ou o que já fomos, salta-me à memória uma frase que li num livro que, infelizmente, já não sei identificar, mas que, felizmente, ainda guardo toscamente escrita num pequeno caderno de capa azul que me ofereceram algures em 1999:
“É com os acasos que nos atiram da direita e da esquerda que urdimos o nosso destino. Acreditamos dizer o que queremos, mas é quem nos fez falar pela primeira vez que fala escondido por dentro das nossas palavras.”
A citação é, se a memória não me falha de Jacque Lacan…
Se lhe perguntassem em que pensava, não saberia responder. Provavelmente não ouviria sequer a pergunta nem que lha gritassem ao ouvido. Sintonizado apenas nos passos cada vez mais próximos, de alguém, de algo, de alguma estranha forma que não reconhece mas pressente. Sincopados, certeiros. Avassaladores. Tinha medo. Encolhia-se a um canto da saudade e empurrava os joelhos contra o peito. Do silêncio surgiam as vozes que o inquietavam, vozes que ecoavam sonoras num conflito que não tem forças para vencer. Acocorado, perdido no pensamento do antes e do depois, deixa-se absorver pelas chamas que lhe sombreiam o campo de visão em imagens fugidias, cintilantes…
Apesar de a vontade ser a de ficar em casa a afogar a dor entre as reminiscências cada vez mais ténues dos dias que, afinal, foram quase sempre indistintos, acabou por empurrar o corpo pela noite obrigando-o às luzes de uma madrugada fria.
Alheio ao espírito a que a quadra natalícia sugere, atravessou a cidade de bar em bar, encarneirado por uma multidão onde não se reconhece nem se vê, narcotizado em ébrios espaços de copos de whisky e fumo de cigarro. Traficado pelo valor mais baixo da sua auto estima.
Os ponteiros no relógio de pulso contavam não o tempo, que lhe parecia estático, mas as partículas cada vez mais densas de um obnubilado sentimento de despedida; esse expoente intransigente a que, obstinado, se entregava.
Como um rio sem margem, deixou-se levar sem as vontades próprias que tanto valoriza; sem a garra que recentemente se tinha descoberto; sem o poder da escolha e da decisão. Tropeçou em caras de outros tempos, em abraços e sorrisos de ocasião, e tudo lhe pereceu igual, tudo lhe pareceu feito de uma estúpida e imutável resistência inconsequente.
Volta a casa pela hora do lobo, de alma vazia e olhos rasos e traz nas mãos, por entre os dedos, as memórias que já lhe escapam.
Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.
Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão par ao campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!…
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores…
Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! –
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendia…
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta:
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- …no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água…
…um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
…O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
comos e fosse uma festa?… –
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá par ao cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!…
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte, violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas, portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever de falar
[…]
Peço-lhe apenas que seja sempre indulgente em relação às respostas que talvez o venham a deixar de mãos vazias; pois, no fundo - e precisamente nas coisas mais profundas e importantes - estamos indescritivelmente sós, e para que alguém possa aconselhar ou mesmo ajudar outra pessoa, muita coisa tem de acontecer, muita coisa tem de dar resultado, toda uma constelação de coisas tem de se conjugar para que isso aconteça.
[…]
Rainer Maria Rilke, Viareggio, 5 de Abril de 1903
in Cartas a Jovens Poetas
Meu telemóvel tocou.
O display mostrava um número que não conhecia, portanto, atendi a medo:
«Estou sim?»
Do outro lado, depois de alguns segundos de ruído de fundo, uma voz:
«Pai?»
Esta é a hora
Sem nunca o desejar sempre o esperei
Chegou o momento, chegou a hora
Veio com o vento do Outono e levou-te embora
de mim, de nós
Para onde nunca o saberei
Por que choro ao ver-te partir?
Quando já há muito deixaste de viver
para apenas existir
e lutar por ficar
resistir ao tempo e durar
Para que essa luta, existência
e esta lágrima que resbala
eternizem a enorme ausência
que deixas em teu lugar
sentada no sofá da sala.
Não escondo a minha admiração por Miguel Sousa Tavares, quer pela sua escrita (crónica, reportagem ou romance) quer pela sua postura independente, ou ainda pela mordaz frontalidade com que se pronuncia cruzando muitas vezes a ténue linha que lhe separa a sinceridade da arrogância. Costumo acompanhar todas as, raras, entrevistas com que presenteia os leitores. Aqui fica a última, conduzida por Carlos Vaz Marques no programa da TSF, Pessoal e… Transmissível. Não é, a meu ver, a mais interessante dele mas, sem dúvida uma entrevista a ouvir com atenção.
Há já uns tempos largos que a categoria ‘política’ não tem sido usada neste blog. As razões são mais que muitas e não as vou aqui expôr. Deixo apenas uma visão, lúcida como sempre, de Ricardo Costa sobre a actualidade:
Deserto
Império do Sol
Tão perto
Império do Sol
Prova dos nove
Da solidão
Cega miragem
Largo clarão
Livre prisão
Sem a menor aragem
Sem a menor aragem
Que grande mar
De ondas paradas
Que grande areal
De formas veladas
Vitória do espaço
Imensidão
Ponto de fuga
Ampliação
Livre prisão
Anfitrião selvagem
Anfitrião selvagem
No deserto
Ouço o fundo da alma
E, se a areia está calma,
O bater do coração
É que tanto deserto
Tão de repente
Faz-me pensar
Que o deserto sou eu
Se não me vieres buscar
Não sei se aqueles que me acompanham neste blog se lembram deste meus post de há um ano.
Desde essa altura que vos quero disponibilizar em audio ou vídeo essas aveludadas palavras.
E uma vez mais acredito que a desilusão tem o mesmo berço da ilusão. São ambas feitas da mesma matéria. Nascidas do mesmo sonho. Uma o início dele, outra o seu fim… Complementar-se-ão? Uma o arquétipo de um desejo, a outra a sua materialização no instante em que abrimos os olhos; a fracção de segundo em que tomamos consciência de um novo ciclo de reacções cognitivas…
Por agora anoiteço, amanhã caminharei de novo de ilusão em (des)ilusão…
Para que infinitos olharás tu? Quem verás para além do vento que te ondula os cabelos? Que marés amanhecerão no azul do teu olhar? Para onde te leva a brisa dessas águas, que cheiros, que vontades… Porque não estou eu debruçado nessa janela ao teu lado recordando a saudade de um futuro mergulhado em ilusões? Um barco ao longe, do outro lado junto à costa, sou eu que chamo por ti. Soltei amarras, icei as velas ao vento, ajustei o leme. Vem…
Se os meus dedos neste blog não escrevem é porque dele têm medo. Não querem, não deixam. Guardam para si o tremer quase estático da inquietude dos dias; das sombras das noites que já anunciam o fim do verão.
The wounds on your hands never seem to heal
I thought all I needed was to believe
Here am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or the beat of my heart
My love wears forbidden colours
My life believes
Senseless years thunder by
Millions are willing to give their lives for you
Does nothing live on?
Learning to cope with feelings aroused in me
My hands in the soil, buried inside of myself
My love wears forbidden colours
My life believes in you once again
I’ll go walking in circles
While doubting the very ground beneath me
Trying to show unquestioning faith in everything
Here am I, a lifetime away from you
The blood of Christ, or a change of heart
My love wears forbidden colours
My life believes
My love wears forbidden colours
My life believes in you once again David Sylvian
Dos silêncios e dos conflitos a que se entrega traz consigo um tigre que passeia pela trela como quem passeia um cachorro. Ninguém o vê. Apenas tu. E eu. Sinto-lhe o rugir de felino selvagem. Predador. Sinto o calor ofegante de um respirar angustiado. Consigo ouvir as correntes que se arrastam pelo chão a cada passo. Caminha ainda pelos corredores exíguos e bafientos e ao fundo a luz amarela da arena começa a ofuscar-lhe o olhar. Em breve gladiará perante um coliseu vazio de gente.
Nos seus silêncios com que vai preenchendo as páginas que deixa em branco, a tinta é de bruma mas é com sorrisos vai acrescentando reticências aos parágrafos…
[O homem magnânimo sabe como comportar-se quando é exaltado e quando é humilhado. Sabe mostrar temperamento na sorte, seja boa ou má. Não prova nem exagerada alegria num grande sucesso, nem muita dor numa derrota. Não procura, mas também não evita o perigo e poucas são as coisas que o preocupam. Não é dado facilmente a falar, mas quando a ocasião o exige, diz franca e corajosamente o que sente. Não ambiciona ser louvado nem ver os outros censurados. Não se zanga por coisas de pouca importância e não conta com a ajuda de ninguém.] - Aristóteles